Etiquetas

Abra de alguma lucidez audível / o que nem sabe-se por palavras nem / na música caminha, nem o silêncio anuncia-o [...] (J.O.Travanca Rego)

19 junho, 2010

Vai na passarola


A morte de um escritor que ocupa um bom pedaço da nossa estante deixa-nos sempre tristes. Mas mais triste fico em pensar que já não vamos descobrir por esse autor mais mundo, mais sonoridades, outras narrativas e novas formas de reconstruir essa pele do mundo que é a literatura. Acompanhava a obra de José Saramago há muito. Gostei muito de alguns livros e pouco de outros. Mesmo nestes encontrava sempre uma ou outra frase que os salvava e por isso ficaram ao lado dos que, nalgumas épocas da minha vida, me ajudaram a descobrir geografias, tempos e afectos. A Praça de Camões, em Lisboa, nunca mais foi a mesma depois do Ano da Morte de Ricardo Reis, nem o Convento e a praça de Mafra, depois do mais celebrado e estudado romance deste Nobel Português. Também o Alentejo ganhou com o Levantado do Chão. E toda a escrita de Saramago, e a sua leitura, seriam outras, sem o Manual de Pintura e Caligrafia; e a percepção da dor seria menor sem O Ensaio sobre a Cegueira.
Saramago morreu ontem. Dizem que já se esperava. A última vez que o vi parecia trazer um corpo a sumir-se, a querer ir-se para o pó a que todos pertencemos.
Pertenço àquela comunidade de leitores que têm sempre autores na mira; que esperam a notícia de novo livro e correm à livraria para o comprar. Olhando agora para as estantes parece que já sobram poucos. Envelhecer não é só cheirar a morte em cada madrugada, é não podermos acrescentar mais livros ao nome dos que gostamos.
Pois aqui vai então um adeus português: até sempre José Saramago.

25 abril, 2010

O EXCESSO DE NÓS



NECROPHILIA
Autor: Jaime Rocha
Editor: Relógio d'Água, 2010

Imagem: quadro Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti, cujo pormenor é reproduzido na capa do livro.


Necrophilia, o quarto livro da tetralogia a que Jaime Rocha chamou «da assombração» é uma obra que situa o leitor (que sou) num lugar do moderno habitado pela noção do fantasma. Entende-se aqui fantasma a figura que ocupa o lugar de um outro que se deseja, uma realização impossível. É então o desejo de um para o outro que constrói o fantasma, noção que Lacan aplica noutros contextos mas que neste livro se reúne ao desejo de um pela amante que deixou de existir.
Embora Jaime Rocha não nos informe de onde arranca este título e a personagem cujo peito foi preenchido por um vazio, o livro tem na sua capa pormenor do retrato Beata Beatrix (que remete para a Beatrice, de Dante Alighieri) e o nome Beatrix em topo de página (em dedicatória), depois de prefácio de João Barrento e citação de Edgar Allan Poe. Esta beata Beatriz é a poetisa Elizabeth Siddal (1829-1862), Lizzie ou Sid, musa de pré-rafaelistas e mulher de Dante Gabriel Rossetti, encontrada morta pelo pintor com uma overdose de láudano.
A dor de Dante foi tão intensa que o levou a escrever alguns poemas que colocou junto ao corpo da amante. Do corpo exumado, sete anos depois, foram resgatados esses versos que deram origem ao livro The House of Life (1881).
Jaime Rocha parte assim da constituição desse fantasma, mas que se percebe não ser a mesma história de amantes, para escrever Necrophilia, citando a ideia de Poe de que não haveria melhor tema para uma poética do que a morte da amante colocada nos lábios do amante.
A constituição desse fantasma pelo «desejo negro» é, nestes poemas, a construção de um homem e uma mulher num impossível encontro pelo mundo: A mulher passa numa clareira, mas nas / veias do homem apenas existe o resíduo do seu cheiro, uma visão indefinida. (pg.35)
A visão que o homem tem dela é «demasiado brutal para um humano». Mas assim é para todo o fantasma e, sobretudo, para o sentimento que acompanha desde o início a construção, lado a lado, desse fantasma. Esta construção que poderia, à partida, ser pensada doce em lábios do amante (como refere o poeta norte-americano) torna-se o levantamento de todos os acidentes, já que o acidente é a mulher. Há, portanto, na imagem, um sacrifício constante de quem não tem existência. E o homem divide-se num caminho entre a terra e o céu, numa vã procura (já o sabe à partida) mas que é preciso percorrer se quiser afastar-se das imagens dela no sonho e dos restos dela no quotidiano para se colocar perante o sublime: Toda a perfeição se anuncia nos insectos que roem as papoilas (pg.41).
A alegria não lhe pertence, e só dominando o tempo e os dois planos da existência, onírico e real, pode chegar a um fim. E para tal revê-se o homem noutros, pedreiro ou cavaleiro, (a vida e a morte) que expressam várias evoluções mas que aqui se apresentam em ofícios que não lhes pertencem, como se desconhecessem as leis e as regras. Tudo parece condenado, assim é o lugar do fantasma, ou pelo menos a sua construção: o homem sabe. O que ele diz é falso (pg.46).
O homem dos poemas também sabe que só a doença cura. O cura-me para que eu possa morrer (de Broch) ou cega-me para que eu possa ver, é aqui transfigurado: ele quer que ela ressuscite para a matar outra vez (num volver constante da culpa), para que maior seja a dor, «para que o choro regresse com mais força» (pg.47), já que nada pode atenuar a sua dor. Só o excesso é possível, e a morte. A morte de tudo é a desaparição do assombro. Mas tem que ser tudo, «tudo, até os cães,» tem que desaparecer na «escuridão» (pg.73).
Entre a culpa e a sua impossível expiação; entre o desejo de tê-la e a sua impossibilidade; entre estar assombrado e pisar um chão ainda sem nenhum rastro, nasceu outro fantasma, ele próprio já sem o tempo (que todo o humano tem) da assombração, que se foi no cansaço da existência e da lucidez. Sem o saber, o homem estava a tornar-se transparente. Mas não é nisto que nos transforma o nosso tempo? Fantasmas.
O trágico e a ironia são duas figuras através das quais podemos ler estes versos de Jaime Rocha e, por paradoxal que possa parecer, também são estes os conceitos em que se alicerça a modernidade tardia, sob o peso de uma estranha torção.

23 março, 2010


António Salvado
Otoño/Outono
Editorial Verbum (Madrid)
Trilce Ediciones (Salamanca), 2009
[traduções de A.P.Alencart e An Oshiro)

Numa parceria de duas editoras espanholas, António Salvado (Castelo Branco, 1936) edita Outono/Otonõ. Em três línguas (português, espanhol e japonês) os tercetos deste poeta português aproximam-se de Basho trazendo à natureza dos seus versos a luminosidade oriental. Não se desviando dos seus principais temas, quase sempre unidos a uma descoberta constante dos traços naturais que a linguagem conserva, António Salvado parte em busca do sentido «rente ao dizer».

O silêncio da Voz não é total:
um sussurro se esgueira
até ao meu ouvido


Este belo livro tem a acompanhá-lo desenhos do artista japonês Kousei Takenaka.

O AFECTIVO DE NÓS


Maria Filomena Molder
Símbolo, Analogia e Afinidade
Edições Vendaval, 2009
(capa: pormenor do desenho Sonhar Acordado de Adriana Molder, reproduzido integralmente na página 7)

O livro que hoje aqui trago não é um opúsculo de fácil leitura. Maria Filomena Molder parte de uma «iluminação» que teve em criança para construir um esboço entre analogia e afinidade com o símbolo pelo meio: «Um fim de tarde, enquanto descia por uma rua íngreme em frente da minha casa […] dei por mim, entre conversas e brincadeiras, estupefacta, a surpreender o horizonte longínquo, o mar […] Subitamente entrevi que tudo aquilo tinha estado à minha espera sem eu o saber». Para este livro de 76 páginas a autora convoca autores que de há muito lê a analisa. De Kant a Fernando Gil são inúmeros os contactos com autores modernos e contemporâneos, seguindo-lhes os dizeres e, principalmente, tentando neles evidenciar a distinção que subjaz em analogia, afinidade e símbolo e o seu parentesco, ou não, naquilo a que o humano chama «vida».
O que vem de longe, que nos precede tal como aquela constatação na infância da autora, parece revelar-se em símbolo, não sendo este mais do que um arquétipo, uma «imagem pairante» que se determina num tempo e num espaço e, embora precedendo-nos, acompanha-nos. Há nesta noção uma alegria do Vivo que a transcende já que é necessária a essa determinação a acuidade própria de quem está atento ao mundo e, mais, que ganha pela linguagem autonomia em nós. Marca. Mas por ser binário, o símbolo pode ser um ruidoso fundo que pode nunca chegar a determinar-se. O vivo ficaria assim arredado de um percurso de mediação com o mundo. Talvez por esta disposição natural do símbolo, o humano, na evolução, ganhou mais «duas matrizes distintas», a analogia e a afinidade. Na verdade, as formas e funções (se assim podemos dizer) são distintas. As formas analógicas consagram, sobretudo, a reunião dos sentidos, mesmo na ancestralidade da metáfora, já que o seu campo se instala na dualidade da entidade linguística e psíquica (isto é, figura e imagem em Aristóteles). O eclodir da metáfora é o despertar do carácter analógico que pode existir entre dois elementos. Mesmo no poema este cria um movimento analógico na língua do outro e este cria na sua língua um sentir não analógico.
Neste carácter analógico, que pode ser afectivo, nenhum enigma existe. Já o mesmo não podemos dizer da afinidade: «a essência da afinidade é enigmática», cita Benjamin a autora. E a partir do texto benjaminiano «Analogia e Afinidade», Molder conduz-nos até essa estranheza em linguagem: «a afinidade é destituída de expressão», portanto, não comunicável. Este facto lembra-nos a descida a uma semântica privada que não pode estar presente na linguagem em comunicação: a queda comunicativa seria imensa. Então, a afinidade é uma parceria que não se diz e que persiste nos mais variados campos: do amor, da dor e da crença, por exemplo. Se é próprio da analogia atribuir a dois elementos distintos funções matricialmente idênticas, cabe à natureza desenvolver afinidades. Daí que em Goethe as metamorfoses aconteçam por «afinidades electivas». São aparições do que se criam em silêncio e na mudez, mesmo debaixo da língua: a «afinidade é irmã do emudecimento».
Talvez por isso o andaime de Wittgenstein não entenda este problema.
Um livro para ler devagarinho.

14 março, 2010

Um problema ou a solução


Um Toldo Vermelho

Joaquim Manuel Magalhães

Relógio d'Água


Trabalharão com as palavras que lhes deixas,
Perguntarão os sentidos.
Ninguém mais escutará tua voz como tu a ouviste.
Assim errando falarão de ti
(Consequência do Lugar, pg.54)

Muitos têm revisitado a sua obra provocando ligeiras alterações no que tinha sido publicado, lembro-me de Teixeira de Pascoaes; outros têm encurtado a obra com alterações, lembro-me de Herberto Hélder. Mas em Joaquim Manuel Magalhães nenhuma destas hipóteses é viável com a publicação de «Um Toldo Amarelo» que, em nota do autor, substitui toda a obra anterior. Só que não há a possibilidade do confronto deste livro com os poemas anteriores do poeta.
O que é que a palavra nos pode ainda dizer? O que vem da necessidade e da convenção. Mas se cessa a necessidade, a convenção é um acordo que não serve a ninguém, muito menos ao autor. Fica só a palavra, milhões de vezes repetida nas vozes de outrora, que já não soa (apenas na gravação), e nos livros. Essa palavra unida a outras serviu batalhas, serviu o humano, foi domesticada (assim se pensava). Há sempre um tempo em que se tem que afastar, ficando só da batalha a substância, que não tem sentido, não pode ter, a não ser no instante em que se vê uma e outra vez. E no meio do silêncio, uma cesura onde a palavra ressoa sem carne, apenas halo, apenas o primeiro e último sopro que a insuflou quando foi. Temos esse direito mas não a sei comunicável, partilhável, em livro.
Mas se há esse desejo de tudo descerzir, de deixar os buracos para se ver outro espelho, de não remendar, ou melhor, de retirar do tecido-texto o que serviu à alfaiataria, para ficar apenas o osso, que mal há nisso? É o desejo oficiante. Descarnado, o poema mostra apenas a extinção, a dor e a morte (e o som), e no singular poeta o abandono da tarefa de marcar com sinais um percurso secular, nele de desencanto, que desejava outro. Real. Dói ver a vida posta em esqueleto sibilante com pouco do que faz os dias serem mais dolentes, representativos porém de uma passagem.Fica por conhecer o porquê deste problema (ou solução). Adivinho

21 fevereiro, 2010

JUDITH BARRY


Body Without Limits

Há três momentos que os derivados do cinema do século XIX utilizam para uma distorção da história do meio e seus artefactos.
Primeiro: a sincronização, na década de 20 do século passado, de imagem e som. A realidade tinha que deixar de ser ímpar e passar a haver um outro que com ela competisse em afecção e destino. O trabalho realizado na Europa e nos EUA até àquele momento daria inúmeras instalações que antecipam o trabalho realizado por alguns artistas contemporâneos em obras de multimédia (sobretudo, vídeo e som). O segundo momento é a alteração da noção da matriz do real quando comparada com a sua representação: era necessário voltar à encruzilhada e seguir outro caminho. A realidade não se pode comparar à sua representação, perdida que está a afecção pelo que é ímpar (pela natureza, por exemplo). Para tudo tem que haver linguagem que una a coisa humana à coisa natural. Mas isto não é importante para o que o humano faz no seu círculo. Era então necessário deixar a reprodução e passar à produção: é este o terceiro momento. É claro que durante muitos anos ainda pensámos o produto na sua relação com um objecto bem real (mesmo uma fonte sonora) que se lhe assemelhasse. Mas este reenvio para o objecto (que é bem «audível» nos sons e vozes da rádio) foi, aos poucos, sendo erodido. O produto da criação é agora um território que só pode ser visto e ouvido a partir da distância teorética e da explicação no horizonte do sujeito que estabeleceu voluntariamente um contacto. O que aqui é «legível» é sempre uma antecipação do artista, um trabalho de pesquisa sobre a nossa percepção futura e o modo de a impor. Só que o objecto, o ponto de vista e o espectador-escutante são a criação, num determinado espaço e tempo, de uma percepção muito própria que torna qualquer obra muito individual.
É este plasma metafórico que sentimos quando acompanhamos a obra de Judith Barry( EUA, 1954), Body without Limits, em exposição no CCB.
Merece uma visita atenta para repensarmos, in loco, as formas que os meios vêm impondo às imagens e aos sons.

09 fevereiro, 2010

O OLHO e a PINTURA



Os homens reunidos na caverna começaram por achar estranhos aqueles traços na pedra. Porque lhe eram singulares e como eles em diáspora. Mas o autor quis que fossem ali gravadas cenas da vida quotidiana. E ele nada achou de estranho neste ofício e no que fazia. Apenas os outros, os que estavam atrás e lhe admiravam a perícia, ficaram encantados com a solução encontrada para o passado da visão. A contínua representação do mundo pela visão, através do braço e mão do artista ou do olho dos espectadores, é apenas a forma com que o humano consegue identificar o passado e constituir fora da visão a memória do que lhe escapa: um sonho fora de si, foi isto que aquela cabeça na caverna pensou depois de admirar o que tinha feito. E depois, quando passou com a mão pelos traços soube que esse sonho estava ali, bem como uma história. Os outros apenas se arrepiaram com o traçado que o sílex fez. Mas alguns acharam «aquilo» bonito. Ver e fazer são assim tarefas distintas na arte: o espanto de um lado, o espírito do olho no outro.
Li num jovem poeta espanhol, agora traduzido para português [Mariano Peyrou, O Discurso Opcional Obrigatório, Trad. de Manuel de Freitas com prefácio de José Ángel Cilleruello, Averno, 2009], uma outra forma de dizer o que atrás expus:

A maior aventura é levantarmo-nos
e desenhar um ser humano nas paredes
da caverna, tocar com as novas mãos
a diferença entre objecto e a sua
representação, derramar e beber a
criação do conceito.

O Resto é Ruído


à Escuta do Século XX
Alex Ross
Tradução de Mário César d'Abreu
Casa das Letras, 2009.


A primeira parte deste livro centra-se nas alterações das formas musicais protagonizadas pelos dois principais músicos do início do séc. passado: Mahler e Strauss. Foram os primeiros a sentir na primeira década do século a vibrante actividade nova-iorquina, a electrificação da música e a mistura com a música popular como o ragtime. Mahler e Strauss foram recebidos na América como artistas populares e rapidamente entraram nos circuitos comerciais e nos grandes armazéns americanos. A música erudita misturou-se com o povo. Esta influência americana vai-se revelar também num músico da geração seguinte, Schoenberg.
Ocupa um espaço privilegiado de entendimento deste tempo e da sua música a obra Doutor Fausto de Thomas Mann, feita no seu exílio em LA, numa pequena comunidade que agregava muitos que se opunham ao nazismo, entre eles T. H.Adorno.
Embora demasiado preso às influências da música americana na que se compunha na Europa, o livro estabelece uma galeria de músicos que, de uma maneira ou outra, alteraram para sempre a noção de música no século vinte. E melhor, descreve esse século a partir de todos os sons que rapidamente se incorporaram na música directamente, através da gravação e da reprodução ou pela alteração do naipe de instrumentos clássicos.
O ruído e a electricidade; a alteração da composição e o contágio com a música popular; a noção de corpo, movimento e energia revolucionaram a música do século vinte, tornando-a para sempre inconfundível.
Da reprodução, Alex Ross avança pelas épocas e pelas vidas dos principais compositores para chegar à produção, à síntese e à electrónica.
Um livro a ler para se ouvir melhor o século que passou.

23 outubro, 2009

O Erro como Conceito Produtivo


A definição de erro é vasta, podendo considerar-se aqui como o que é inexacto, o pecaminoso ou a falha de doutrina.
O erro era na obra de arte o resultado de uma deficiente técnica ou o efeito da má qualidade dos produtos usados.
Com as primeiras vanguardas do século passado e depois do erro se ter assumido como um ponto de passagem para a certeza, a completude ou o resultado científico exacto, passou-se a integrar o erro na obra de arte, tal como o músico introduziu o ruído na estrutura musical. O que estava de fora passou a ser contido pelo recipiente.
O erro, ou melhor, o bom erro é o resultado de uma acção decorrida até ao ponto em que errar se constitui num tempo e num espaço impossíveis de deslocar: mais para a frente é a dor; um pouco antes é um erro menor, imperceptível, já que ainda existe espaço e tempo até à melhor falha.
Com este erro, em que o antes ou depois estabelecia uma falha por inexactidão ou redundância, respectivamente, era natural que a arte o absorvesse e o expusesse: primeiro como o já não frágil da obra (e do mundo) embora visível; segundo, como acção ou natureza contida ou neutralizada pela própria noção de arte e obra.

Estes são os dois níveis que atravessam a maioria das obras expostas em «A Beleza do Erro» (The Bauty of the Mistake, LX Factory, em Lisboa, com organização de Puppen Haus, Associação Cultural).
Vemos peças em que o erro é assumido e torna-se o centro da obra, sem a fragilizar; e também obras de arte em que o erro é o leit-motiv da criação e assim é exposto.

Foi isto que me ficou de 30 artistas, nacionais e estrangeiros.
É pena que a exposição estivesse em público apenas 1 mês (creio que encerra a 25 de Outubro).
Deixo imagem de uma obra exposta, da autoria de Markus Hofer (Viena, 1977)

17 setembro, 2009

Orhan Pamuk


Outras Cores
Editorial Presença
Lisboa, 2009

Os textos de crónicas e ensaios que alguns escritores publicam em revistas e jornais de circulação e divulgação restritas ou que tendo um público mais vasto se perdem na voragem dos dias, quando reunidos ganham outra leitura e um tempo mais propenso à análise. É isso que acontece com o livro do escritor turco Orhan Pamuk, prémio Nobel em 2006.
O subtítulo do livro, Ensaios sobre a Vida, a Arte, os Livros e as Cidades, remete o leitor subitamente para o espaço multidisciplinar onde o ponto de vista autoral é hegemónico. Poucos detêm este estatuto e são menos os que o merecem. Pamuk tem estatuto e merece-o.
De todas as áreas que a sua prosa cativa apenas merece algum desconforto quando escreve sobre de livros que o marcaram. Não porque não interesse a perspectiva de alguém que sabe do ofício, mas porque Pamuk nada de novo acrescenta à obra de Thomas Mann ou Dostoiévski, por exemplo. Ao invés, torna-se lúcido e original quando ensaia sobre política, nomeadamente, sobre o pedido de adesão da Turquia à UE, ou sobre os conflitos individuais e civilizacionais do povo turco no privilégio de uma ocidentalização da velha Turquia ou no renascimento de um nacionalismo unido à religião.
O seu ponto de vista sobre a Turquia actual, que já lhe valeu algumas idas a tribunal e a crítica permanente de alguns media e do poder político, merece uma leitura atenta e torna-se, a meu ver, indispensável tanto para o eurocrata que se interessa pelo processo de adesão da Turquia à União, como para o cidadão europeu que pensa este facto. Nada perderiam alguns políticos com a leitura destes ensaios inseridos na segunda parte do livro com o título «A Política, A Europa, E outros Problemas por Sermos Nós Mesmos».
Assoma aos seus textos políticos a lucidez de alguém que consegue manter um ponto de vista intermédio entre um estado secular e muçulmano; entre a porta da civilização europeia e a do Oriente, cada vez mais vítima de si e dos seus e menos do ocidente europeu. Este ponto de vista só podia ter nascido da solidão de alguém que olha o Bósforo como um limite aberto e a cidade de Istambul como o projecto de vários impérios e da «transumância» humana.
E quando Pamuk desce às ruas da sua cidade e fala dos seus, ganha-se um miradouro sobre o mar e as gentes, já que realça os contornos e torna visíveis os confrontos ideológicos e culturais. Pamuk é exímio na análise destas macroestruturas, deixando amiúde no texto problemas que nos questionam directamente mesmo quando escreve sobre coisas simples como uma barbearia. Constata, por exemplo, que desde a sua infância até aos dias de hoje as ferramentas de corte e barbear nada mudaram (com a introdução apenas do secador). Pamuk conclui que a não introdução de outros aparelhos faz com que estes profissionais não tenham mudado a sua maneira de falar. Tem alguma razão este escritor: na verdade, na actualização contínua da tecnologia e de alteração dos meios de comunicação promovem uma alteração das nossas formas de pensar, logo de falar, e esta alteração é mais acentuada na comunicação escrita (ver Barbeiros, pg.74. Texto inserido na primeira parte da obra com o título «Vidas e Preocupações»).
Dirigidas aos leitores da obra ficcional de Pamuk, as duas partes restantes «Os meus Livros são a Minha Vida» e «Outras Cidades, Outras Civilizações» têm um carácter mais autobiográfico a que se juntam contos e algumas entrevistas ao autor.

15 setembro, 2009





Numa tradução do poeta e crítico Manuel de Freitas, chega-nos de Espanha (pela mão da Averno) o livro A Caixa Negra que Josep M. Rodríguez (Barcelona, 1976) tinha editado em 2004.
Os poemas que compõem este livro inscrevem-se do lado da leveza, pelo menos do lado da substância que lhe é par ou nos conduz a substâncias que pela sua aparente ou real leveza raiam a invisibilidade. A neve, a escuridão, o obscuro, a luz e o tempo correm sobre um carril poético que a todo o momento se eleva para lá das marcações do real.
A voz poética, essa entidade não instrumental, que se enche de linguagem e se esvazia em poema, confronta-se, sobretudo depois da década de cinquenta do século passado (e mais agudamente depois dos anos oitenta do mesmo século) entre ser um dispositivo narratológico de reconstrução da realidade, unindo a história da língua a cada palavra, e um decalque, em linguagem, de um real que se mimetiza a todo o instante no poema.
Este decalque na leitura inaugura uma qualidade que diminui muitas vezes o poema, já que obriga o leitor a focar-se num referente que, diluindo-se a todo o instante no sujeito-autor, acaba por distrair.

«O autocarro afasta-se
e a praça é uma aranha de seis patas»

ou

«Fechado e mim mesmo,
sem portas de entrada ou saída»

E gostei muito do poema No Impreciso, Incompleto, que aqui deixo na versão portuguesa, por encontrar nele os ingredientes da arte poética deste poeta espanhol.

Sentado à mesa
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.

29 agosto, 2009

O Imprevisível Instante


É cada vez mais difícil encontrar os livros de poesia que se vão publicando. É cada vez mais difícil comprar livros de poesia de autores que publicam em pequenas editoras, em tiragens reduzidas. As grandes cadeias de livrarias há muito arredaram a poesia para prateleiras esconsas, quando ainda as têm. É claro que o mesmo se passa com o ensaio, mas em menor grau. Lembro-me que ainda não há muitos anos a maioria das livrarias que frequentava, pequenas e grandes, punham nos seus escaparates, ao lado da ficção nacional e estrangeira que se ia editando, as obras de poetas que saíam nas pequenas editoras vocacionadas para esta literatura. Sabíamos o que ia sendo editando olhando para essas montras, mesmo em centros comerciais. A clandestinidade onde entrou a poesia talvez lhe faça bem. Talvez seja a única saída perante a proliferação de uma ficção que esqueceu a modernidade (e a que não esqueceu, mesmo vendendo mais algumas centenas de livros, também deve ingressar nessa clandestinidade) e enche as livrarias, qualquer que seja o tamanho.

Tudo isto vem a propósito de dois livros desiguais em qualidade mas igualmente interessantes, publicados recentemente por uma pequena editora (que também edita uma revista de poesia), a Averno. Falo dos livros «Oráculos de Cabeceira», de Rui Pires Cabral e «A Caixa Negra», de Josep M. Rodríguez (com tradução de Manuel de Freitas).

Pretendo agora ocupar-me apenas do livro de Rui Pires Cabral.


O tempo fez-nos distantes. Desde meados do moderno que alguns de nós parecem não habitar o real, entendendo-se este como o espaço de deambulação e percepção do mundo: somos cada vez mais fantasmas. A poesia de Rui Pires Cabral abeira-se deste género em que se conjuga morte e vida e ambas são, no verbo, estranhas.
A salvação que ficou perdida numa época em que dissecar o dia era encontrar um sol determinado a sermos felizes é agora coisa de momentos: eternos retornos que podem fazer do dia uma memória que a escrita pode salvar, relendo-a. Tem, portanto, que ser escrita. A bolha da espuma dos dias é uma descoberta. Uma de cada vez, não toda a superfície que cobre a vida e que se tornou inenarrável.
O cadáver real tem sempre coisas para oferecer, nem que seja o cheiro da sua fermentação ou decomposição. Ou o cheiro do estranho que revive, por sempre o pensarmos morto à distância: «he loved beauty that looked kind of destroyed», relembra o poeta a partir de James Gavin. Todo o real é uma «beleza arruinada» que quer salvar-se pela intenção do poeta. O outro real que o poeta habita é um real clandestino que, em toda a poesia, quer vingar-se do mal.
Apenas um problema: o fantasma é cada vez mais real e habita sem sombra, mas vivo, o mundo. E habita-o pelo lado impraticável que é o da escrita.
Nestes versos repousam as mortes, as épocas, as cidades, os amigos e as estações que só aqui ainda são o que eram. Uma poesia clara, bem composta, sem deslizes que podiam atrapalhar a leitura. Em todos os poemas a possibilidade de uma acção decorrida a lembrar em cada olhar. Mas o poeta, na sua distância genuína, sabe que «ninguém parte de repente / à procura de mais mundo, / ninguém chega por acaso / ao seu nenhum sentido, olhando simplesmente / da varanda». É isso. Mas insistimos, até ser calo a recordação em verso de um tempo que sendo agora está para sempre perdido.

20 julho, 2009

Paul Celan é o início de alguma coisa



(Albrecht DÜRER- Melancolia)

A morte alimenta-se de alegria e a alegria é um caule que a eleva cada vez mais alto até ser sombra em todas as casas. [A morte de Celan começou muito antes essa sombra. Começou por dentro; à sombra da língua, na sombra que as palavras fazem quando as escrevemos e as olhamos de todos os lados. Todos encontramos na leitura uma sombra de verão mas Celan tocava a morte nessa sombra].

Todas as palavras têm uma história. E mesmo as palavras mais simples, como Zeit, têm a dor das águas fundas (do Sena, talvez). Mas não só: também o que releva do não visível, a olho nu, e o que tocam as mãos deixa o coração perdido em despedidas. Mesmo assim o que resta do que se queima – que são todas as palavras em que acreditamos – tem como flor uma «cinza branca», que é o olhar do silêncio. Há uma palavra ainda. Sem grafia. «Sobre verde carregado»: a janela é uma evasão, um «rasto luminoso» de vida e uma mão a chamar-me. [Celan diz mãe antes do último gole de água suja].

O mundo não tem superfície que sirva à mão, volume para uma carícia no tempo. A superfície está sempre presente no olhar, nos caminhos que percorremos em distracção. Só o deserto tem vida, o deserto que o «azul inunda», até ser desperdício o pensar. [Ó mãe, por que escrevem eles poemas na minha língua? A palavra mãe, ou amor, tinha que soar do mesmo modo que a minha? Tem que ser igual a gramática dos assassinos?].
Crescemos como queremos nas palavras: pele com pele, casca com casca até à sem idade. Tudo é um grito pela existência e por um sentido.

O Trivial e a Tragédia


(Athanasius Kircher, Musurgia universalis (1650))
Tal como a imagem tem produzido ao longo dos tempos um bloqueio na diversão emocional, ao constituir-se numa transparência que é, em muitos aspectos, nefasta ao entendimento do que lhe está à frente, também a vida contemporânea – apoiada nesta transparência – vem sendo ocupada pela trivialização.
O trivial e a transparência não pertencem ao mesmo campo semântico mas são ambas consequência de uma «secura» que se instalou na relação humana; uma secura (na maioria das vezes óptica) que esteriliza o lugar das possibilidades de um acrescento do mundo a partir do que sustenta o explícito. Só a obsessão significante destas duas palavras (transparente e trivial) tem produzido livros e leituras que vão de encontro ao progresso da arte.
Desconstruir – verbo usado aqui longe de qualquer construção filosófica – foi sempre o caminho da metáfora artística. E este caminho, embora se pense ilusório e simulado, não é mais do que uma aproximação e identificação do que sustenta a representação (numa pintura ou num romance, por exemplo). O que observamos cronologicamente, do início do moderno ao contemporâneo, é um percurso da imagem para o que a sustenta (a cor e a palavra, por exemplo). Assim se fez a melhor arte do século passado. Só que este percurso não foi feito por todos, pelo menos aqueles que utilizam a hegemonia da visão, obrigando a que as coisas denotem histórias, linearidades, em suma, harmonia.
Se os olhos não pretendem sair desta linearidade, o nosso cérebro há muito dela saiu. Contar uma história como o faziam os nossos clássicos parece ser, à chegada, uma ilusão sustentada pela trivialidade e, na maioria dos casos, pela excessiva transparência que convoca a opacidade: a potência da transparência do objecto embate no que é opaco.

09 junho, 2009

Novas Mitologias, ou o condomínio fechado do café



"Elle est petite mais riche à millions, elle est ronde mais légère, elle a des tas de robes qui bruillent, tout le monde en est fou:

Jennifer Lopez? Non, la capsule Nespresso".

Alix Girod de l'Ain, La Capsule Nespresso, in Nouvelles Mithologies, ed. Jérôme Garcin, Paris, Seuil, 2007.

07 junho, 2009

AOS OLHOS DE UM DEUS DISTANTE


Os Olhos de Himmler
Rui Nunes
Relógio d’Água Editores, 2009


Sou culpado. Somos todos culpados. Tudo o que fazemos chama-se morte: um gesto, uma palavra, uma casa


A Viagem, que é o nome do primeiro capítulo deste livro de Rui Nunes, começa como um sopro e uma luz entre arbustos num deserto e acaba no mar. Thalassa. Thalassa., com que termina o livro é a palavra contida no grito dos heróis conduzidos pelo jovem Xenofonte entre Cunaxa e o Ponto Euxino quando avistaram o Mar Negro. Depois de uma longa travessia, fugidos da guerra, a visão do mar confirmou o regresso àquele elemento que eles tão bem conheciam: naquele líquido estava a liberdade e o cheiro da pátria.
É de libertações que trata este livro: da memória do crime (no caso de Andreas, o médico soldado, que se arrasta pelas ruas como um indigente), a memória de um paixão que se transformou em ódio (no caso de Greta que vive agora um lar de idosos, em silêncio com o mundo). Mas, sobretudo, a libertação de um tempo que dói.
A viagem de Andreas pela sua memória num real que já lhe é estranho, é a viagem de um homem em confronto com um tempo «que ora se alarga ora se comprime» (pg.15), tentando reconhecer no corpo que balouça um destino. A narrativa descreve os dois mundos em confronto minuciosamente, da cor ao som. O pormenor é neste livro, como noutros de Rui Nunes, o que naturalmente é o inexplícito, pormenores que fixam as personagens ao mundo. Não uma paisagem ou um pôr-do-sol, mas um insecto no seu voo ou uma pedra a rolar e a embater contra outra. Uma teia cerzida onde se monta a realidade que raramente é avistada. Nesta obra, a teia é produzida tanto pelas personagens como pela narração, em palavras que transportam a sua própria história e que ajudam a saciar a fome desse animal que é o mundo.
Resgatadas as memórias, contadas para poderem ser uma vida alinhada como outra qualquer, fica-se mais pobre, cada vez mais pobre até ao desânimo e ao irreconhecimento. Até ficarem apenas algumas palavras, em letra minúscula, como deus e corpo.
Neste polifonia, nenhuma palavra está fora do sítio, já que cada palavra é também ela o seu destino. Se alguma estivesse desalinhada a teia cederia ao primeiro contacto da voz. É preciso que todas as palavras sejam aqui inteiriças para serem totais, para se transformarem na única possibilidade da invenção.
As vidas de Andreas e Greta crescem para trás com a leitura, sem linearidade, são novos, velhos, jovens, felizes ou infelizes, mas crescem do interior das casas para a rua, e da rua para os lugares mais recônditos da casa, aqueles que usamos para os segredos da infância ou da juventude. E estes lugares vão aos poucos sendo inundados de mortes, de crimes, de ódios. Como se a vida do Homem fosse uma sucessão de desvios aos actos que poderiam levar à felicidade: «não invejamos unicamente o poder, o dinheiro, a felicidade ou a glória. Invejamos também o sofrimento, a doença e a tristeza […] invejamos o que é intenso» (pg.58).
O livro é uma teia de memórias que se atravessa como se atravessa lentamente um campo acabado de semear. A aridez é apenas uma impressão. À lupa aquele chão de palavras explode em cada árvore, ave, semente, fruto e mesmo no desenho que os pés gravam no chão. O resto é uma mancha que engole o mundo e o seu significado. Tal como os olhos de Himmler, «olhos de cal» (pg.98).
E aqueles que se conheceram há muito, que se amaram e se odiaram, voltam a juntar-se na velhice sob o mesmo tecto. A casa é já um sepulcro. O mundo é uma visão da alta janela da casa junto ao rio (austríaco), uma cor a desaparecer no silêncio. As mãos de Greta no pescoço de Andreas cumprem o destino e o sonho do deus distante que mirrou em nós.

07 maio, 2009

Continuação do último parágrafo do post anterior


Nota: falou-se hoje muito de imigração. Veio um jornal dizer que diferentes sectores da sociedade estavam contra a imigração (1ª página: sindicato, patrões e governo: todos querem menos imigrantes). Propuseram-se regras de entrada, que alguns políticos muito apreciam.

Também a imigração é um ruído. E o que temos feito ao ruído desde sempre? Afastamo-lo. Mas o ruído da imigração é o ruído da língua e dos costumes. Os que se integram, integram na sua paisagem sonora o ruído de outra língua e o da sua na paisagem dos outros. Ora, como vimos, esta é a única forma de (para além das que relevam do normativo legal ou das pulsões individuais) enriquecer distintamente a nossa paisagem sonora, torná-la mais conforme ao mundo em que vivemos.
Com a imigração legal e integrada aprofunda-se também a noção de democracia e a sua «intimidade» social.
No fundo, as paisagens sonoras alteram-se de um modo por vezes implícito, mas sempre surpreendente, porque existe o ruído dos imigrantes.

20 abril, 2009

Gosto de pensar que o céu nos olhos educados dos ocidentais é um problema grego





I.
Temos as imagens que nos chegam. Têm origem nas catástrofes naturais que assolaram algumas áreas do planeta: China, Birmânia e Itália. Vemos corpos sem vida expostos ao sol; à beira de um rio na Birmânia; e corpos vivos sob a cor e o peso do cimento. Vê-se-lhes os olhos e os lábios cobertos de poeira. Vê-se-lhes a vida. Vê-se-lhes a alma. Pois a «alma mora no ponto onde o eu se decide» a permanecer vivo. Depois do nascimento precisamos de um segundo nascimento para sermos novamente dotados de alma, diz-nos Michel Serres: damos a alma ao lugar solar no nascimento, para a adquirirmos, depois, com a salvação do nosso corpo. No risco que corremos para nos salvarmos, depois do risco que corremos num facto do mundo, nascemos outros, parcialmente outros ou sempre outros. Só agora compreendi. Pela linguagem de Serres compreendi como se fosse coisa nova.
Pela mão podemos encontrar no corpo máquino-vertebrado o que se diz da alma. O dedo torna-se mundo e o lugar do corpo que toca enche-se de vida, de si, pois entumece-se com a «alma local» [mas sempre que os lábios se tornam conscientes no exacto lugar e momento do toque do dedo, este perde-se, regressa ao mundo, a um lugar de silêncio sem nome]. A alma global que convoca todas as outras apenas a podemos encontrar num lugar próximo «do espaço da emoção» (pg.18).
Um dia seremos nada, já que mortos ou o nada do cyborg com dedo maquinal a tocar o lábio, pálpebra da máquina. Isto é uma ficção humana onde o lugar da emoção e da tatuagem é imprescindível e possível. Porque a tatuagem nas dobras e superfície da pele é o máximo táctil do intacto que é a alma.

II.
Hermes, o mensageiro (hoje em dia a informação e a comunicação em rede) matou pela música Argo Panoptes, o que tinha o corpo coberto de olhos, o espião supremo, o que vigiava mas não punia Io (a amante de Zeus transformada em vaca e depois já em seu corpo rainha do Egipto). A pele de Panoptes foi utilizada para compor a cauda do pavão de Hera (mulher de Zeus). Em conclusão: Hermes matou o princípio da teoria, a visão, para tudo unir em rede e comunicação. Mas também esta não prescinde da visão já que a escrita é visionária.

III
Passamos a existir enquanto língua. Já não podemos falar, isoladamente, dos cinco sentidos. Eles só são em linguagem: «o verbo ocupa e anestesia a carne» (pg.54) ele se fez carne. E quando no ruído a palavra é esquecida, o corpo quer soçobrar porque está habituado às palavras que o curam de ser só interior. Faça-se então mais ruído e toda a pele e a sob-pele são agora um corpo intenso. Se o ruído parar as palavras voltam. Mas é preciso que elas fiquem suspensas, por instantes, sem nenhum encontro com a carne. Sem fala. É isso que o corpo quer dalguma música contemporânea.
Voltemos à pele ouvido, a Panoptes que tudo vê agora na cauda de um pavão. A pele é ouvido e superfície táctil. Apenas dois sentidos no mesmo órgão que é a pele: audição e tacto. Não interessa lembrar ou pensar, não tem interesse a linguagem para que se possa constituir no momento um território que seja nosso, só nosso e variável. Não precisamos de ver, basta a acusmática para que o corpo se feche ao mundo e se reconstitua. Só assim nos podemos misturar, já que os olhos não podem misturar: são o lado de fora de nós.
Ficamos pele e ouvido. Tudo impresso como nas dobras e vales do cérebro. A imagem das suturas cranianas revelam-se também no que protegem e, ao longo do tempo, na pele.
A pele não tem centro, é um sistema de comunicação e informação. Já não precisamos de luzes nas margens para a nossa rota, não precisamos de faróis na noite que são pontos centrados na vasta escuridão. A pele coberta pela inscrição natural é visitada pela alma, diz-nos Serres (pg.72).

IV
Desde sempre a teoria esteve unida à visão, na e com a palavra. Mas também a intuição, como nos mostra Kant na sua Crítica da Razão Pura. Isto quer dizer que o conhecimento é um problema de sólidos. Só que, desde os fins do séc.XIX, o percurso do conhecimento desviou-se, ligeiramente, para o líquido e deste para o ar («Tudo o que é Sólido evapora-se no ar», diz-nos Marx por Marshall Berman). Caminha-se na direcção do fluido (Serres, pg.78), do som, do ar e da mistura: um novo tecido, portanto. E sentiu-se que esta alteração era benéfica para a saúde. Se o ruído é o princípio da cura (mesmo em medicina, já que todos os órgãos têm os seus ruídos e patologias) a linguagem com que vimos cerceando o conhecimento é sempre o avolumar da morte já que prescinde de muitos sentidos, sobretudo do tacto e da audição, que unem o corpo à sua circunstância; a linguagem «anestesia os cinco sentidos» (pg.87).
Nota: mas o ouvido não precisa de linguagem. Escutar tem que ser uma acção que rompe a barreira da linguagem. Não é por acaso que aquele que fez da linguagem o lugar do conhecimento, Sócrates, no instante da sua morte, quando a cicuta lhe tingia o corpo exclama: «o som destas palavras […] não deixa ouvir nada». Mesmo assim solicitou ao seu amigo Críton para falar, ao que este respondeu: «Não, Sócrates, não tenho nada a dizer». Para que Sócrates escutasse o que vinha. «Então deixa isto, Críton, e sigamos este caminho, visto que é por ele que a divindade nos conduz» (Críton, último diálogo. Utilizo tradução de Manuel de Oliveira Pulquério para Apologia de Sócrates/Críton.

V
Para Michel Serres existem três fontes de ruído. Primeira: o organismo enquanto caixa negra que guarda os ruídos dos séculos e que os evidencia na necessidade. Com este ruído atinge-se o silêncio (que em meu entender já não existe) e a linguagem. O ataque à linguagem pelo ruído é o mais feroz e violento de todos, mas, e ao contrário de Serres, torna mais sadio o corpo, pois tem necessidade dele para acrescentar territórios, sintomas ou, simplesmente, desviar-se, por instantes, de uma coacção do tempo. Segunda: o mundo sonoro é também fonte de ruído. É uma noção de ruído enquadrada na ideia que a natureza faz barulho para sobreviver. Terceiro: o colectivo. O ruído protocolar das comunidades: «o ruído define o social» (pg.105). Mas define-o pelo lado da sua organização e inter-relação. O ruído é aqui e sempre uma distância. E esta distância será menor ou nula no processo de imersão. Sempre que deixamos de ouvir um determinado ruído é porque já faz parte do nosso espaço audível e, por aí, do nosso território.
O humano aprendeu com o ruído duas coisas: que reúne espaços e tempos distintos; que assusta que não reconhecem pelos ruídos o território (o ruído é inoculador do estranho). Por esta razão a guerra faz barulho e os antigos exércitos antigos levavam o ruído nas primeiras fileiras: se para os da casa era «sinal de união»; para o inimigo era o estranho e, por isso, o medo.
Não é, no entanto, o ruído que disperso pelo mundo pelas técnicas humanas torna incurável o espírito e ameaça a natureza, já que ela é também origem e fonte de ruído. As espécies ameaçadas, ou que se extinguiram, são aquelas que não conseguem constituir novos territórios à «vista» do estranho ou da alteração dos seus habitats, ao contrário dos humanos que conseguem, pelo que é audível, recuperar lugares. O que a natureza nunca vai entender é que o ruído humano é informação, coisa que o humano sabe, desde que Hermes venceu Argos Panoptes.
Tudo faz ruído. A voz, por exemplo. Há, no entanto, que afastar, como afastamos das nossas casas, o lixo ruidoso; aquele que coage sobre a nossa liberdade e capacidade de constituir territórios novos ou acrescentar espaço ao nosso território privado.
No princípio está o ruído, depois fez-se linguagem e uma nova camada sobre o ruído surgiu, o sentido. Mas antes «de ter sentido a linguagem faz ruído: o ruído pode dispensar o sentido, mas não o inverso» (pg.117). E depois uma nova camada, a escrita, que pretende suprimir o ruído pela luz, pela linearidade, mas tornou-o global, contaminando todas as línguas. A escrita como tecnologia humana para a comunicação levou o ruído a difundir-se pelo mundo «literário» (como os turistas ocidentais em mundo selvagem). E o mesmo acontece com a música: «a linguagem precisa de música; a música não precisa absolutamente de linguagem (e significar e decifrar na música é a sua morte). A música precisa de ruído; o ruído não precisa absolutamente da música» (pg.121). A música, tal como a escrita, leva na sua cauda o ruído, o sem sentido e a desordem.
O que temos vindo a constituir (no conhecimento humano) é sempre uma passagem através do ruído. Só que nesta passagem, ao ultrapassar-se, levamos na cauda parte desse ruído das margens. Não foi por Ulisses (na Odisseia, Canto XII) ter obrigado os seus marinheiros a colocarem cera nos ouvidos e a atarem-no ao mastro, que se perde o ruído doce das Sereias. Ele, com os ouvidos destapados, tinha que ouvir o doce canto e levá-lo como ruído, para o outro lado, já que esse canto representa o contacto com o mundo, a que o homem não se pode furtar, embora algum conhecimento tente evitar este contacto com o banal. Mas, ao contrário do que afirma Serres (pg.123) ele não vence, o mundo banal é que vence. Por todo o lado, em todas as paredes, prédios, ruas e esquinas as passagens fazem-se sempre através do ruído. A harmonia que Leibniez vê no mundo e originada em deus é agora uma obrigação secular de convivência e conformidade. Fragmentado, o mundo vive agora sobre um ruído de fundo que, tal como a cola, mantém unida a «obra».
As sociedades, tal como o corpo, mantêm-se unidas pelo ruído que é um fundo desde que a visão irrompeu hegemónica no conhecimento humano e na metafísica ocidental. «Quem não tem o dom da vida faz filosofia» (pg.131). É exagerada esta afirmação de Serres, mas a concepção da filosofia andou (desde a história de Tales de Mileto) afastada do encontro com a vida, e nela, com o furor e o ruído.

VI
Todo o corpo é um tímpano global: ouvimos por toda a parte do nosso corpo. O corpo é uma caixa de absorção sonora e de ressonância. E se os olhos nos endireitaram; se por eles ganhamos a postura erecta que temos hoje, os ouvidos cedem o equilíbrio ao corpo. Só quando o corpo se coloca na posição de escuta é que nos dobramos, tornamo-nos flexíveis. Isto significa que a tentativa de ocupação, por imersão, de um espaço audível faz alterar a postura erecta. Dobrar o corpo para a imersão (seja ao telefone, microfone ou junto ao altifalante) é conduzir o corpo em dobra para a escuta e para a imersão no sonoro.
O corpo quer obedecer a essa escuta; quer fazer parte do fluido: nisto ainda somos peixes. E querer fazer parte desse fluido é deixar-se conduzir até ao som e, por ele, construir o desenho da fonte sonora. A diversidade da escuta serve para isso: empreender uma construção a diferentes níveis, pois também a natureza e constituição do nosso ouvido interno e externo é distinta. Ressoa já no nosso ouvido interno não apenas um som mas uma estrutura com que o mundo se pode ver de uma maneira diferente. Depois de muitos obstáculos e filtros o som chega finalmente a um lugar central onde se ergue a sua imagem: «a caixa, útil ao conhecimento, serve a vida. Eu a sigo. Moro nela» (pag.143). Na maioria das vezes sem língua.
Calar é, hoje em dia, um verbo importante: calar, porque só assim podemos entrar no processo de escuta; calar para que a quantidade do discurso seja menor mas se reconheça nele o mundo. E só depois, sim, ajudar a erguer esse mundo. Falar se parar e não se aperceber que enquanto fala outro significado vai sendo construído pelo discurso do outro: o rumor não cessa.

VII
O território sonoro que construímos e vamos estabelecendo ao longo da vida e do dia, torna-se pela imersão em coisa nossa, íntima: coisa natural.
O desvio do nosso percurso para novos territórios faz de nós seres em constituição. Para um citadino a ida ao campo é a imersão num novo território. Mas este espaço acústico contém sons e ruídos que não fazem parte do seu território urbano. É, por isso, fácil instalar-se a melancolia e o desassossego. Os sons da natureza são, para estes ouvidos, coisa artificial, enquanto o bulício da cidade lhe é natural. Esta passagem faz-se sempre através dos sons. Os sons dos animais e insectos no campo é coisa artificial para o urbano, enquanto na cidade o que é artificial é natural. Entendemos assim a ligação da adolescência (e não só) aos novos meios de comunicação.
Mas a cidade e o campo deixaram de ter, neste aspecto, uma separação nítida. Há lugares no campo (em vilas e aldeias) que constituem a mesma relação com o artificial. Só em habitação dispersa é ainda possível sentir-se uma nova imersão e a constituição de efeitos que podem alterar o nosso humor.

A relação das paisagens sonoras

Como todo o corpo é ouvido; como estamos imersos em territórios sonoros, quando nos deslocamos, deslocamos connosco o nosso território (coisa íntima). E é este confronto que cria pânico, medo e melancolia. E para recompor o território leva o seu tempo, podendo ser mesmo o resto da vida. Por isso a melhor forma de recompor um novo território deve fazer-se (ao contrário do que pensava, em parte, Ulisses) pelas passagens que são os ruídos e o rumor. A substituição faz-se, lentamente, por imersão: o que à partida é artificial deve tornar-se natural pois só assim se torna elemento do nosso espaço acústico. A melancolia persistirá enquanto todos os sons que preenchem a nossa habitação não nos forem naturais.

(as páginas acima referidas são do livro Os Cinco Sentidos – Filosofia dos corpos misturados, de Michel Serres)




Francis Bacon, Portrait of Henrietta Moraes, 1965