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LUCIDEZ AUDÍVEL

Abra de alguma lucidez audível / o que nem sabe-se por palavras nem / na música caminha, nem o silêncio anuncia-o [...] (J.O.Travanca Rego)

04 março, 2016

Primeira Leitura de «A Crisálida», de Rui Nunes

Autor: Rui Nunes
Título: A Crisálida
Editor: Relógio d'Água/2016


Crisálida, que sabemos ser o lugar e o tempo da metamorfose, foi o título dado por Rui Nunes ao seu último livro. Livro pequeno como sucedeu com os últimos: o desequilíbrio dos olhos não permite ao autor grandes excursões. Porém, elas acontecem, já mais estreitas no deslocamento das paisagens, cada vez mais ao rés do chão, como o narrador afirma. Vamos pela «catástrofe das pequenas coisas» que já foram grandes. O que metamorfoseou a sua dimensão? Quase sempre um ecrã. O transparente vidro dá-nos a conhecer o que acontece num deserto onde começaram as línguas e a humanidade: degolam-se homens como se degolam cabras. Para as máquinas, para o mundo. Dar a ver o sangue é apenas o prolongamento de uma catástrofe maior que germina há muito no corpo-dentro do homem. Há outros nomes para isso? Há: a desconfiança, o medo, a fome e o último cadáver a apodrecer numa praia do Mediterrâneo ou do mar Egeu. Vamos de uma violência antiga às mais recentes. A mesma linha de união. Só que agora o ecrã distrai-nos e tinge de cor fílmica as imagens. Os mortos reaparecem em todos os lados, temos porém «um ecrã que podemos desligar quando quisermos», mas não deixamos de ser «todos jazigos». Já não estamos à espera que aconteça qualquer coisa, ela está a acontecer. Só que as mediações reencaminham-nos para outro lugar que é possível encher com outra linguagem. Arranjamos a que mais nos convém, a mais distraída, a mais superficial, a que torna os vivos e as situações apenas aspectos, «esboços», como afirma o narrador. O som, porém, renova a densidade da vida. Parece ser o elemento que ainda une todos os fragmentos, que os cola, e que dá dimensão ao que, estando vivo, se movimenta. Existir tornou-se difícil. De um fim-de-semana em Varsóvia ou em Munique; do cemitério do Holocausto a uma viagem pela Baviera; de uma exposição de fotografias aos ecrãs televisivos, o que sobra neste livro parece resumido na paradoxal palavra «Advento». Mas «advento de quê», pergunta-se no livro. Advento é o tempo da espera e, por isso, da esperança, um tempo de alegria em relação ao devir. O que advém deveria ser de paz, mas não é. O que está à espera é já a extensão futura da monstruosidade, o tempo por vir do estágio em crisálida. Pode haver retorno a outro tempo? O narrador aponta uma ou outra paisagem, a fina espessura do tempo com a qual é possível percorrer memórias, ganhar afectos, e regressar de rosto aberto ao gamboeiro que salva o dia.

01 abril, 2015

Auschwitz

Podem aproveitar: até dia 5 de Abril, a exposição de fotografia de Carlos Inácio, em Peniche. Fica aqui o Flyer feito pela câmara municipal.

http://issuu.com/municipio_peniche/docs/catalogo2

25 março, 2015

In Memoriam

Há luzes que brilham de dia mas só o sabemos à noite. Apagam-se nos olhos ao ficarem inertes na opacidade das coisas. Espantadas ficam na sua germinação, sem palavras, apenas um som que se esforça e quer levantar um sentido. Há luzes que se apagam no amor. Há luzes que se apagam na guerra. Há uma mão invisível que cobre os olhos, muito por dentro, rente ao signo. Há luzes que se apagam no sangue sempre sujo pelo tempo, e quando esmorecem violam essa dor pungente que habita a carne. Aqui abre-se a ferida cega, irmã noutra natureza desse som que propõe ao animal primevo a água e a fera. Ainda estamos lúcidos na cinza e no desejo, mas sem o tempo da espera. Há um abandono para começar.

16 março, 2015

Orquídea-II

Chegou a Primavera a casa. Há um ano pensava que eu ou a orquídea não chegaríamos a este mês. Claro que me inclinava mais para ela. Contra os meus prognósticos, e sem que lhe desse mais carinho, água ou sol, ela rebentou em flor e está agora mais bonita. Ao contrário dos outros anos, nesta Primavera a planta decidiu ainda brindar-me com duas inflorescências laterais que ficarão totalmente floridas em Abril. É para se ver que um ano é muito. Em tudo.

25 outubro, 2014

O SENTIMENTO DA NATUREZA E DE PERTENÇA

«é importante que um homem se sinta não apenas cidadão de uma nação em particular, mas também cidadão de um lugar específico do seu país, que tenha as suas lealdades locais».
(T.S.Eliot , Notas para uma Definição de Cultura)

A obra de António Salvado entrou-me pela porta adentro há muitos anos. O único jornal que havia lá em casa, semanalmente, era o Jornal do Fundão. Comecei a ver o seu nome e a ler alguns textos. Mais tarde encontramo-nos. Tenho com ele, para além do meu reconhecimento de um grande poeta, essa infância numa aldeia da Beira Interior. 
A partir da década de 70, já com outra idade fui lendo com fervor a poesia portuguesa do século XX. E o António estava lá. Já por vezes me alonguei sobre a sua obra, em recensões ou breves análises. A maioria está ainda legível na internet. É uma vantagem do digital. Estando ele em Castelo Branco e eu em Lisboa, falamos pouco mas trocamos livros. E por isso posso dizer que devo ter na minha sala a quase totalidade da obra de António Salvado.
 
Há uma expressão que pode ser o princípio desta pequena conversa: a construção literária de uma pátria sensível. E o que é esta pátria sensível? É um híbrido: possui um território, uma paisagem e um encontro. Se o território e a paisagem são naturais numa pátria (e esta paisagem tem sempre diferentes camadas) o encontro é um lugar, neste caso literário, a partir do qual se ergue uma produção afectiva. Este lugar torna-se pela poesia (ou outro género) um espaço e tempo de deambulação pelo que fomos e o devir desse mesmo lugar. A beira interior tem na obra de António Salvado um destaque particular, não que o poeta se sinta na obrigação de ver, sentir e escrever sobre o mundo que habita, mas porque os elementos que fundam a sua poesia parecem nascer desse mundo. Há então da nossa parte um reenvio constante a essa pátria feita de plantas, águas, estações e gentes, e também o que vai do quotidiano à sublimação do dia. Por mim, ergue-se nas vezes que o leio uma afeção que é quase sempre uma infância, dando assim razão à ideia que a infância é o lugar da poesia: infância da língua e do nascimento de um sentido sempre renovado do mundo.
A obra de António Salvado, sobretudo a que vem produzindo nos últimos anos, ocupa-se das noções de existência e natureza que têm servido, desde o século XVIII, para o olhar crítico e analítico da condição humana. Numa era em que a produção de arte e a expressão do sensível se faz, muitas vezes, através de mediadores, separando o humano, a natureza e a arte, a poesia deste poeta insiste em manter uma relação próxima, ideal, com o que funda a vida. Sei que é um velho dilema, sobretudo desde aquele século, e a partir do texto de F. Schiller, «Sobre a Poesia Ingénua e Sentimental». O problema era natureza e sobretudo uma espécie de esvaziamento na noção de natureza com o avanço da técnica e dos seus mediadores. Na maioria dos poetas do século XX, e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, a cisão entre o sujeito e uma unidade originária há muito estava feita. No caso de António Salvado isso é notório mas, e isso sucedeu nalguma modernidade, há um desejo em parte da obra em encontrar pela linguagem, uma palavra que levante o mundo, isto é, que dê unidade ao que se perdeu. O nosso poeta voltou-se então para a natureza e o indivíduo, e pelo verso tenta essa unidade, já não como princípio sem o qual não é possível dizer o mundo mas, sobretudo, como uma harmonia, uma sintonia, a partir da qual o poeta se realiza e o indivíduo ganha forma. E aqui são importantes as formas que percorrem a obra do poeta. Sem nunca deixar as práticas de ritmos, métricas e composições clássicas, Antonio Salvado desde muito cedo empreendeu formas que tornavam os seus poemas como próximos de um dizer antigo e, simultaneamente,   reconfigurou-as para um presente em que a leitura é marcada por uma força visual que dá relevo a espaços, sentidos e outros ritmos.
Mas que natureza é essa para que nos remete constantemente o poeta? É uma dupla natureza. Se por um lado encontramos na poesia que invocamos uma permanência no lugar da tradição, por outro lado a sua obra acompanha a poesia moderna e contemporânea ao instalar-se na tangência desse lugar. Assim, a natureza poética em Salvado é um ponto,  de tangência com a tradição mas também ruptura com a mesma. Da poesia vê-se a infância mas também o que nos afasta dela: a nossa história e o nosso tempo. É, por isso, uma natureza sensível gerada mais pelo espectro do que pelas materialidades. E isso é também parte importante do que funda o afecto (uma «afinidade exterior», in Poesia, Difícil Passagem). 
Volto aqui ao início e retomo o que se pode considerar a marca mais expressiva, pois se funda no sentimento, natureza e afecção, da poesia de António Salvado: o lirismo. A poesia lírica está hoje muito longe do que se entendia antes do século XVIII. As rupturas da modernidade com a tradição e a inclusão do tempo e existência individuais trouxeram novas paisagens à poesia. Basta lermos o século anterior. No meio da linguagem uma interrogação permanente do sujeito. E nas margens dessa linguagem ainda e sempre a tentativa de erguer uma língua que pudesse aprisionar o tempo e o mundo. Já não todo o tempo, já não todo o mundo, mas o nosso tempo quotidiano e o mundo que nos calhou em sorte. A poesia de António Salvado junta a estes elementos um tom sentimental, podemos chamar-lhe aqui de lírico (para ser fácil uni-lo à tradição) em que todos os mais pequenos fragmentos do quotidiano (uma dor, a chuva, a beleza de uma manhã, a tristeza de uma partida) refletem-se na sua linguagem poética, não como uma posição diarística, que poderia haver, mas como o sensível que quer ser parte integrante dessa textura e do tecido que, sempre como uma música, a sua poesia vai construindo. E assim se chega à criação de um território sensível e, nele, uma pátria.
Não é em vão que o meu
Lugar me acompanha: ele
Que me fez da terra,
Que me deixou respirar,
Que me insuflou o fogo 
Da criação, que fez dele
Brotar a água que bebo.
(Ecos do Trajecto)
Com esta afeção e com a marca lírica do poeta chego ao fim da minha breve peregrinação.

Nota Breve: este texto deveria ser parte da minha intervenção em Castelo Branco, num painel incluído no colóquio em homenagem a António Salvado. Mas não cheguei lá. O carro não quis andar.

23 outubro, 2014

Em homenagem ao poeta António Salvado


Em boa hora, a Câmara Municipal de Castelo Branco quis celebrar o poeta António Salvado e organizou um conjunto de atividades a que chamou «O Caminho se Faz por entre a Vida» a acontecer nos dias 24 e 25 de Outubro. Se estiverem por perto participem. A entrada é gratuita para todos os eventos.

18 outubro, 2014

A fotografia

A fotografia era o real. Tornava visíveis os opacos e por eles a luz. É um problema do século XIX: ver o invisível. Também o som. Só que a fotografia nas suas relações com o poder quis ser outra coisa: propaganda. E, no melhor, um exemplo retórico do que estava escrito. 
No momento em que alguns artistas usam a fotografia para "recriar" o real, opondo imagens, manipulando outras, a imagem técnica instalou-se numa transhermenêutica que lhe retirou a noção do verosímil. Então a fotografia desceu à morte que sempre representou.
Lembro-me sempre de Kafka numa conversa com Thieberger: a fotografia é uma coisa sinistra. E ainda por cima pode ser ampliada.

17 outubro, 2014

Uma frase

Eu estou no meio do mistério, a Arte ajuda-me a deslocar-me no meio dele.
(Frei Bento Domingues, em entrevista a Lídia Jorge, Público, 28-9-2014)

15 outubro, 2014

Os Nossos Tempos

Juntaram-se na minha secretária, mera coincidência e convívio bom, o livro de Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo, e a tradução para português da obra de Gilles Lipovetsky, com a colaboração de Jean Serroy, (L’Esthétisation du Monde), O Capitalismo Estético na Era da Globalização. O Capitalismo Estético é apenas uma continuação da obra anterior de Lipovetsky: uma antropologia social, descrevendo as estruturas que fazem da obra de arte contemporânea um elemento importante no circuito internacional do capitalismo. E aqui entram em jogo muitos agentes que não faziam parte do jogo da arte: os políticos e ideologias, os mercados, o real valor das obras e o seu valor comercial. Como em qualquer venda, ninguém quer perder. Mas há sempre perdas a relatar, agora que a obra de arte é vista na era da globalização. O espetáculo tem que continuar e a isso serve a estetização do mundo. O mundo está cheio de objetos estéticos e a sua serventia deixou para trás o problema estético para se fixar no valor de troca e circulação. Estas obras  são herdeiras de muitas que surgiram depois da segunda metade do século XIX, quando a modernidade se começou a interessar pelo tempo e pela história. E quando a tecnologia e a técnica aceleraram os seus processos de controlo e de distanciação do homem, ou desnaturalização: entre o homem e o real há agora mediadores. O fétiche e a fantasmagoria (de Marx e Benjamin) são aqui importantes para entendermos o nosso presente; depois veio Adorno e a mercadoria (e também a «infantilização» da produção e recepção musical: On the Fetish-Character in Music and the Regression of Listening); e Debord e os situacionistas. O que Vargas Llosa nos diz, em crónicas publicadas e que são a base do seu livro, é que o problema da arte é também o problema do homem e da sociedade ocidental que fizemos. A sociedade transparente que muitos querem constituir como a potência máxima da democracia é apenas um vidro transparente que não permite ver-nos, a não ser quando algo acontece em quem respira e fica embaciado. Mesmo assim não nos vemos, nem o que fica além desse vidro: vimos o que escrevemos ou desenhamos, até que a total transparência volte. Se deixamos de nos ver e o real não se atinge, é apenas uma imagem, então nós, como objetos, transformamo-nos em fantasmas. É preciso gritar isso bem alto. E esse grito dá em arte, infantilidades, fetishismo e esmagamento moral. A solução é retirar essa transparência para que possamos ver os outros e neles, nos seus olhos, o nosso rosto. Talvez Lévinas tenha razão.

14 outubro, 2014

Um espectro irrompe

Leio uma notícia no jornal Expresso. Coisa pequena, um pequeno quadrado no topo de uma página, à direita, numa secção a que o próprio jornal chama «Breves». Ouvi a mesma notícia na rádio.  «UKIP entra no Parlamento». É este o título. Vem-nos dizer, um pouco como acontece em quase toda a Europa, que o racismo e a xenofobia estão de volta ao parlamento inglês. O eurofóbico UKIP (partido da extrema direita britânica) conseguiu eleger um deputado. O problema, não é a eurofobia, disso deve estar o parlamento inglês cheio, é o que esta ideia traz à sua retaguarda: um conjunto claro de ideias racistas em que o outro é sempre o estranho a evitar. Começa por quem não faz parte do seu credo e raça e alarga-se depois aos seus vizinhos. E o UKIP já começou, pedindo que sejam proibidas de entrar no Reino Unido pessoas com VIH. Nós sabemos que a doença invocada é apenas o brilho das facas que, para já, não querem exibir.

13 outubro, 2014

10 de Outubro: novo livro de Rui Nunes


Li esta noite a última obra de Rui Nunes: um livrinho com pouco mais de 30 páginas, publicado pela Língua Morta. (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?). Esta pequena narrativa trata a morte de alguém que viveu numa cidade portuária. Sabemos isso pela descrição de ofícios, barcos e um porto. Para além desta morte, há o que a funda: o preconceito homofóbico. É uma descrição dura como sempre na obra de Rui Nunes: minuciosa nos actos e nos elementos que compõem o seu desenvolvimento. Tem uma unidade própria já que o fio condutor se ergue a partir da deambulação de uma espécie de espectro. Falo de espectro porque muitas personagens de Rui Nunes (e esta parece ter realmente existido) têm uma assinatura que parece ter nascido com elas, que lhe foi aposta: a morte e a dor são parte delas, como se fizessem parte do seu carácter e do seu sangue. Há sempre na obra de Rui Nunes uma dimensão ética que não encontramos na maioria da obra literária contemporânea. Há muito que deixou a história como condutora de um modo de constituir o seu discurso e o ponto de vista sobre o mundo. Fazemos o nosso ponto de vista sobre a obra, enquanto leitores, porque somos forçados a uma construção e desconstrução dos processos narrativos mas também dos modos de olhar o sujeito. É a condição humana e as suas margens que brotam do centro dos seus livros.

9 de Outubro


É importante começar. As mãos começam a ficar tolhidas no seu mistério. Encantadas por estarem votadas ao seu abandono natural. É preciso que elas regressem e participem do estar vivo. A cabeça está aí, espera apenas um tempo de se fazer palavras. Também o corpo quer ser outra coisa, quer ser espírito, mas eu quero que ele seja linguagem. Não podemos esperar. Não por uma questão de tempo, mas de memória. Não de uma memória vindoura mas a de um quotidiano que, também ele, se quer arrastar e cair para o esquecimento. Lembrar é aqui importante. Começaram as primeiras chuvas de Outono. Eram precisas, diz quem sabe: lava-se um pouco o chão da terra e o ar fica mais respirável. Fizeram-se esta noite pequenos charcos nas ruas. Deve ter chovido muito. Todos se desviam, e os olhos perseguem um fim ao longe. Estamos a ficar sonâmbulos, não preenchidos de sonhos mas de trabalhos. E os dias são estações ferroviárias que se perdem no nevoeiro. Ficam-nos algumas. As que merecem. Também os dias.

31 março, 2014

Um Jardim Abandonado que Desbota, novo livro

Já não publicava poesia desde 2002. O último «À Procura da Cidade Sob a Luz Artificial» foi publicado pela Black Sun, nesse ano longínquo. Sai agora «Um Jardim Abandonado que Desbota».
Deixo aqui um poema:

(segundo)

E uma noite depois quiseste ficar comigo.
Tudo parecia idêntico menos as nossas mãos
que trémulas seguravam o silêncio
não fosse ele soltar-se e partir-se
e espantar os pássaros para bem longe.

Tínhamos ambos a língua inchada
de nada dizer
do sarro que se cultiva na superfície
que sabe por vezes a sangue
quando lavrado com os dentes.

Dá-me a tua mão, pedes-me,
mas ela tem a força
de nunca ter sido corpo
e desmancha-se a caminho da tua.

Quando te toco é já  um feixe de ossos e carne que se alonga
desprendendo-se com anéis e tudo para o silêncio
lá fundo.

Aperta cada vez mais, sufoca-a,
até que seja tua, tua pele,
ou um anjo degolado:

peço-te.

15 dezembro, 2013

A Palavra Memória

Autor: Zlatka Timenova
Título: Chama, a Palavra
Editora/Ano: Edlp/2013

Este livro de Zlatka Timenova*, em pequeno formato, parece ter sido feito para a mobilidade urbana. Com prefácio de Nuno Nabais e revisão de Rui Zink, a poetisa búlgara verte para a língua portuguesa textos que, penso, escreveu originalmente em francês.
Temos então uma edição bilingue de pequenos poemas que se lêem como traços de um quotidiano submerso pela breve luz que se encanta por objectos, sentidos ou memórias. Com eles caminhamos ao encontro de uma opacidade que se revela em poesia. As palavras assumem que o que é breve aos sentidos merece permanecer -preto no branco- sem, contudo, se esquecer que também o verso se insere na linha do tempo: «No eco / do silêncio / oiço o sussurro / do tempo / eu sou o tempo» (pg.79).
Os poemas que raramente ultrapassam os cinco versos, tornam possível unir, no instante do seu aparecimento, o corpo sensível e a fantasia. Instante poético recolhido (em duplo significado) na ferocidade do tempo quotidiano. Talvez por isso se abra o título deste livro a uma ambiguidade semântica consentida: a que faz nascer a palavra incêndio - ardor e inspiração- ou convocar a palavra: CHAMA, A PALAVRA. Palavra para perpetuar o instante: «Areia fina / entre os dedos / corre / o silêncio/ dos nossos dias» (pg.25).
Um livro a ler.

*A autora nasceu em Sofia, na Bulgária, e está desde 1994 em Portugal, escrevendo, traduzindo e ensinando.

20 outubro, 2012

Outra despedida

Acompanhei a produção poética de Manuel António Pina a partir de «Aquele que Quer Morrer» (Na Regra do Jogo, 1978) e só depois cheguei a «Ainda não é o fim…» (A Erva Daninha, 2ª edição, 1982). Soube-se agora do seu desaparecimento prematuro. E lembro o seu poema «algumas coisas» onde fala do peso da memória que se «instala em todas as coisas de dentro para fora». Poucos poetas nas últimas décadas trabalharam tão afincadamente a memória, literária e individual, como Manuel António Pina. Havia na sua poesia o desejo de reunir o que na sombra ou no chão é fundamento do que é explícito, já que aquele que está vivo (que é, afinal, aquele que quer morrer) «dança sobre os destroços de tudo». É grande e profundo este levantar em verso «pequenas frases» que dão viço à vida. Sem elas o deserto crescia para fora, e ai daquele que traz em si desertos, lembrava Nietzsche. Mas aquele que quer morrer, lembra-nos, é aquele que quer conservar a vida. Porém,


Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se).



Lisboa a ver o Porto, 19 de Outubro

16 outubro, 2012

Descida

Rasga a noite
uma voz clarão
que separa o que compõe
o mundo.

01 junho, 2012

Em memória da minha filha Francisca

Tal como há dez anos também agora as cerejas se mostram vermelhas nas árvores. Vêem-se ao longe, dos caminhos que nesse dia não chegamos a percorrer. Ficamos muito antes quando ela já levava a brincadeira nelas: correr entre as cerejeiras, chegar aos ramos que dão para os cinco anos; dizer «papá posso comer assim?». E eu a dizer que é preciso lavar. Ela conhecia bem o sítio da água.


Inquieta como sempre queria chegar antes de termos começado a viagem. Inquieta de luz. Que via a sua inocência que nós não vemos? «Posso andar no tractor do tio?» perguntava a Maria, e ela que não. Mas foi só da primeira vez. Depois quis subir. Sentiu o que é a brisa que atravessa a Gardunha e o cheiro forte das árvores. Nesse ano não. Ficou-se distraída num lugar da estrada, naquela por onde poucos já passam. E todos os anos nesta época é assim, e todos os dias é assim: nasce um pomar de cerejeiras só para ela, com água fresca e tudo. E nasce em mim uma árvore às avessas que é só dor.

Mas Francisca, já não existe a quinta, por lá passa agora um túnel húmido e sombrio, cortaram todas as cerejeiras. E também a água foi levada para outros lados. E a vida.

13 maio, 2012

UMA POSSÍVEL HABITAÇÃO

O livro Barro (Relógio d'Água, 2012) é na obra de Rui Nunes um elemento singular. A palavra «barro» que escolheu para título reflecte essa singularidade: por um lado é matéria-prima, arquétipo narrativo que «enforma» alguns dos seus livros; por outro é matéria autobiográfica, remetendo para o avô oleiro. O livro compõe-se assim em duas vertentes: a primeira dá-nos conta dos principais temas que constituem a obra já vasta deste autor (o primeiro livro, «As Margens», é de 1968); a segunda acrescenta-lhe as suas memórias, algumas delas inscritas noutros livros do autor. Este trabalho é feito num cerzimento metódico, unindo fios dispersos, unindo tempos e palavras que lhe são elementares. Assim se faz a literatura.


Um dos temas recorrentes na obra de Rui Nunes é a noção de pátria, agora identificadas: duas da infância, três do homem adulto. Pátrias sensíveis é do que falamos. A primeira é terra e casa, na Beira Baixa, que vem a nós sob uma luz de verão, intensa, que coagula no limiar e torna escura a habitação. Por isso o campo e a deambulação. Enchem as páginas desta pátria, bichos, pó de barro, chão e brincadeiras. E nelas os sentidos projectam-se até aos mais pequenos movimentos e segredos.

Depois da cegueira da luz, ao rés do chão, a outra pátria tem uma brisa marítima, atlântica, lá para os lados de Setúbal. Aqui tudo é diferente: é o mar que explode de vida e enche de luz a habitação. Temos depois mais três pátrias: a de Wachau no Outono, onde se vê, a partir do Danúbio, os restos de uma civilização e «um rio perdido entre a nascente e a foz». Mais a norte Kirkenes, terra vertical sobre o mar, um arrepio profundo. E, por último, a que defende uma outra noção de pátria para os homens: uma pátria sem território apenas corpo, nómada, com o nome próprio de «Viagem».

Este livro está organizado como se fosse um livro de cânticos, aqui e ali intercalados por um refrão. Para decorar, conforme os escritos mais antigos, os primeiros. E como canção, a escrita imprime uma determinada velocidade, ajudada pela versificação. A matéria é, como vimos, a vida; pontos de luz que se unem vindos do passado e se aconchegam no presente que tem sempre uma palavra a dizer ou a acrescentar um hálito de tristeza. Há nesta matéria, substância suficiente para uma definição autoral de escrita e literatura.

O «Faça-se» é aqui não a mediação «ad-hoc» mas a margem da língua que ainda toca no mundo: uma margem antiga, primégina, quando a linguagem quis ser a ponte entre o que é humano e a perdida physis. Se a linguagem primeiro e depois a escrita afastaram o homem da sua natureza, é possível ainda encontrar nesta língua de Rui Nunes um uso em criação e não apenas em mediação. É isso que deve fazer a literatura: encontrar essa margem de contacto, na linguagem, entre coisa humana e natural: «todas as palavras cortam, à nascença. Por isso, / obrigá-las continuamente a renascer, / embora seja também contra nós que renascem.» É necessário, por isso, arruinar a sintaxe, antes que palavras «inventadas» se interponham e tornem insignificante a língua e a vida. Talvez «o fim de qualquer escrita seja a sua destruição». E por esta destruição se destroem também palavras inventadas sobre a ruína, como «deus».

Nunca se sabe o lugar de contacto, nem nunca podemos regressar pelo mesmo caminho. Não há sinais para o retorno. Nesse lugar pode erguer-se sempre uma habitação, mas precária, radicalmente humana, mas sempre pobre: «e dessa unidade tão débil, da veemência dessa pobreza, se fez, se faz, um texto.

Sem pátria. Sem poder.

Quase sem nome.»

Sinto-me mais vertical com livros assim.

El Peine del Viento, Eduardo Chillida, em San Sebastian


05 maio, 2012

Orquídea

A única planta que tenho em casa é uma orquídea. E todos os anos em meados de Abril o verde mancha-se de lilás. Este ano nasceram-lhe cinco bonitas flores. Todos os anos parece haver mais uma. Depois é vê-las todos os dias quando chego a casa. Mas em cada três dias cai uma flor. E hoje, dia 5 de Maio, caiu a última que não guardei. E eu fiquei a olhar aquela haste que queria encher o mundo, a ficar cinzenta e a pensar murchar. E a pergunta que faço é: o que seremos - eu e planta - daqui a um ano, quando a planta se lembrar de ser flor outra vez?

18 fevereiro, 2012

Sentir













Autor: António Salvado
Obras: REPOR A LUZ e AURAS DO EGEU e de todos os mares
Editora: Fólio Exemplar
Ano/Cidade: 2011/Lisboa

Há poetas que vêm connosco desde sempre. Perdidos na infância, ambos. Lembramos nomes. Às vezes ainda não como criadores de poemas e obras mas apenas um nome. Depois chegamos àquela idade que se deseja ler sem sabermos a causa. É aqui que surge António Salvado. Como outros, mas no meu tempo apenas, limitou uma pátria sensível e sobre ela escreve. Se este texto tivesse outro alcance, podia falar de uma cultura sensível, aquela que permanece inviolável nas comunidades beirãs: um olhar muito próximo da natureza que ele soube captar como poucos; um ouvido apurado para o fazer dos insectos se é verão; o itinerário das águas e a metamorfose das flores. E como todos os que chegam à sua idade (Castelo Branco, 20 de Fevereiro de 1936), sente-se agora nos seus poemas um outro alcance, uma espécie de ética poética que quer transmitir aos seus leitores. E por baixo, mesmo no lugar em que o seu sangue tinge as ribeiras, o assombro constante de quem pela primeira vez viu crescer e definhar uma flor.
Os poetas lembram-nos mais que outros o que é estarmos vivos, mesmo que cercados pelo inverso.
«Ó Cesário, tu que amavas a cidade e detestavas o campo, deixa que alguns corações repousem no zumbido sazonal da paisagem.»


Aquilo que direi…
[…]
E só nomes gerados pel’ausência
Aqueles que ouvirás:
Com sílabas de amor fora do tempo
E conformando um comovido espaço.
(do livro Repor a Luz)


Agora que faz anos, daqui lhe mando uma abraço.

11 janeiro, 2012

A CRIANÇA

Escrever palavras, com um dedo de criança
para ficarem soltas no ar, «como alegria e mundo».
Escrever outras menos precisas, «como amor»,
só por descuido,
pois muitas mirram e morrem
sugadas pelo ar da manhã.

Mas o homem não sabe escrever de outro modo.
Nunca teve outro utensílio
apenas o dedo indicador com que desenha
as letras bonitas e redondas
que viu nos livros da casa.

«Desenhar casa», lembrou-se
e surgiu uma cidade
mistura de outras cidades do Sul.

Olhou para onde nunca esteve
e esperou que o ar a engolisse por inteiro.

25 agosto, 2011

Sobre o Fantasma e a Literatura



Obra: Teoria do Fantasma

Autor: Fernando Guerreiro

Editora/Ano: Mariposa Azual/2011



O fantasma colige, sobretudo a partir do século XIX, e ainda mais com o aparecimento das máquinas de reprodução (som e imagem), significados que nunca se perderam na literatura, seja ela erudita ou popular, laica ou religiosa.


Assume-se, no entanto, na primeira parte deste livro, «Literatura Fantástica», (esta obra comporta mais uma parte em poesia a que o autor chamou «Teoria do Fantasma» e uma separata «Teatro Dubrowka»), que não é apenas uma aparição do que já perdeu o corpo que se fala (e daí a palvra teoria) mas de Poesia, enquanto operação humana de produção (em diferentes camadas) de um outro que contamina a literatura tornando-a espectral e, por isso, fantástica.

O ensaio (e o poema) sugere dois percursos para essa aparição: por um lado o autor sabe-se portador do fantasma que preenche o texto; por outro lado o leitor constitui-se, na leitura e através do semelhante e analógico, com a estranheza.


Isto implica quase sempre, dependendo dos modos de produção de sentir, que o «real» renasce sobre o espectro, o que «implica o risco do sujeito» (leitor e autor). Risco de vida mesmo. Quantos soçobraram à visão de um «real» a partir de um meio? É esta última palavra que o livro segue. Não apenas o meio mas também a sua mensagem, essa que torna sensível, «visível», o fantasma.

15 julho, 2011

para os meus amigos

O corpo já arrefece e
a vida é apenas o tempo
de um abraço

11 julho, 2011

JORGE LIMA BARRETO





Conheci pessoalmente o Jorge Lima Barreto há pouco tempo, há menos de um ano, por obrigação académica: fiz parte do júri da sua tese de doutoramento que apresentou à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (da Universidade Nova de Lisboa). Já tínhamos trocado alguns mails, e continuamos a fazê-lo depois da dissertação. Queria convencê-lo a dar algumas aulas no curso de Ciência e Tecnologias do Som, na Universidade Lusófona. Quando um dia destes foi ter comigo à universidade achei-o muito em baixo. Perguntei-lhe das causas. Deu-me as suas. Falamos do estado da arte e do país. Ficamos de falar. Lembro tudo isto agora que o Jorge se foi embora. Penso que deve ter ido dar uma volta, que foi até Vinhais e por lá deve ficar não se importando mais com a cidade, com a música e a escrita em torno da improvisação, da tecnologia e dos instrumentos. Foi sempre novo. Lembro-me na década de oitenta e em alguns concertos. Vou-me daqui a um dos discos dele. E que posso eu lembrar? O Verão com o Jorge dentro.

08 julho, 2011

Cy Twombly (1928-2011)



Olhamos. Olhamos muitas vezes. Suspendemos a visão e pegamos no ouvido. Queremos ouvir o traço do pincel; os riscos; as letras e, sobretudo, os nomes. Ficamos neles. Querem dizer tempo. São profundos e levam-nos a Roma e a Atenas. São nomes de gente. Todos mortos. Mesmo um ponto de tinta ou uma letra remetem para um início, uma origem, que logo se faz maior idade e parece morrer. Mas antes há em nós a evocação de um tempo profundo, da sua memória e das nossas lembranças.
Pintar ou desenhar como se estivesse a ouvir as primeiras letras a serem ditas, articuladas. Escrever para querer dizer os segredos que se escondem por detrás de todas as palavras, mostrar o significado de cada vez que foram ditas. E o que ouvimos? A algazarra dos tempos. As épocas sobrepondo-se e a audição a deixar-se cair para dentro, para essa matriz sonora que se compõe desde o início. Na infância dos gestos e da expressão: é aqui que tudo começa.

Morreu em Roma que tinha adoptado como sua.

06 junho, 2011



Com a vontade de acompanhar os meus livros, esqueço-me que também aqui existo.



Um novo livro, pequeno mas com algum interesse para as questões do som no século XX. Deixo-vos a capa.

Edições Universitárias Lusófona, 2011, 94 páginas.



10 abril, 2011

Amigos: Deixo aqui um convite para o lançamento do meu livro (O Mundo é uma Paisagem Devastada pela Harmonia – [ensaio sobre o ruído e por natureza o som]. Lisboa: Vega, 2011), com apresentação do prof. José Gomes Pinto, a ter lugar no dia 15 de Abril, pelas 17 horas, no Edifício Q, sala Q.2.3 (auditório), da Universidade Lusófona, ao Campo Grande. Espero a vossa presença.

05 abril, 2011

O Desastre Épico



A Mão do Oleiro

Rui Nunes

Relógio d’Água, 2011


Este é o novo livro de Rui Nunes. E nele descobrimos alguns dos núcleos narrativos que já tínhamos encontrado em «Os Olhos de Himmler» (2009). Este livro não escapa a um corte profundo com o que sempre consideramos romance, conto ou poesia: há uma hibridez de géneros que atinge a linguagem do autor. Para além desta hibridez, a escrita organizada como se de um caderno de apontamentos se tratasse, rompe com os códigos da linearidade e obriga o seu leitor a constituir diferentes camadas de sentido, que partem do modelo tradicional da ficção à apresentação de memórias, de superfícies em deambulação a processos poéticos que emergem da impressão do real no narrador. Organizado sem uma distinção geral de lugares e tempos, como se o mesmo corpo (mesmo narrativo) pudesse convocar o que foi e o que é, a leitura faz-se inteira no percurso de cada linha. E em cada linha nasce um caudal significativo donde se pode ver a literatura em construção, mas sem andaimes nem rede. Em cerca de 70 páginas, Rui Nunes convoca para o seu exercício um pretérito e um presente, as figuras de um mal geral, uma paisagem luminosa e sonora mas contaminada pelas diferentes faces do humano e, por fim, as palavras possíveis do que ainda pode ser descrito ou nomeado sempre em convulsão, manchado que está por palavras herdeiras do que desde a origem está contaminado pelo desastre épico reduzido aqui ao essencial e contemporâneo. Desde as primeiras obras que Rui Nunes seguiu o curso literário mais inovador do século XX, o que recusa a prosa ou o romance como meio de informação e entretenimento e dá abrigo a uma experiência na linguagem a partir do vivido e do horizonte da morte.

Há também uma criança que anda de um tempo a outro, de um passado para um presente. Sem nome. O passado é mais largo que o presente. Este estreita-se cada vez mais, em cada palavra, na própria recusa de constituir uma descrição que possibilite ao leitor algum ponto de apoio ou sustentação. Temos alguns mas funcionam como metástases do mal que povoa o tempo, qualquer que seja. Essa criança sem nome cresce em muitos lugares, alguns bem conhecidos, outros nem tanto. E esta criança torna-se homem nesses lugares e, nesta acção, contamina-os com o seu passado. Não os pode ver de outro modo. E o que não se deixa manchar é o que escapa ao humano: o som, as sombras, a luz, o silêncio e o povoamento destes interstícios no espaço e no tempo, isto é, a natureza eterna mesmo que apocalíptica. Bem, a criança cresce em alguns lugares identificados, de Dresden ao Médio Oriente, de um interior rural às grandes cidades, e observa e diz o que passa despercebido à maioria dos mortais. E com esta observação distende também a rugosidade de um passado sobre os erros do presente, alheio ao rancor mas não há angústia e à luz baça do dia. É um livro sobre a existência, ou melhor, como nos tornamos terra com outra terra, e bichos com outros bichos, mesmo aqueles que não se observam a olho nu.

O rapaz veio de um lugar de silvas, de uma escola escura onde as palavras se comiam umas às outras, ou então emudeciam. Por isso o rapaz não tem nome próprio. Ficou no seu passado. E ao tentar lembrar-se dele para o dizer aos que lho perguntam, fica mais anónimo. E surge sempre outro: deus. O seu nome e Deus são o que ele tem mais próximo de uma recordação, da ternura (pg. 70). Sem nome que se pronuncie, que seja som, fica apenas com o do Oleiro, o que desfaz as figuras que cria e deixa o pó da destruição pelo mundo, mesmo sobre os móveis da casa: «faça-se. Faça-se o tempo: / coisa a coisa Deus repete a morte. / E em cada nome, esperamos a explosão, / esse povoamento de restos,» (pg.18). Deus é uma recordação de um domingo, de uma cozinha a mexer-se erodida pelos sons que vinham dos campos. E muito mais. É um nome que torna o corpo um «exercício do medo» (pg.11). Um medo que começou na infância que teve que abandonar para se fazer à vida, prostituir-se. E com esta acção ficou mais anónimo mas também mais livre. Esta acção reconstitui e identifica o que o autor chama de «pátria»: o escárnio do outro e o seu poder são apenas formas de libertação, ou de estar perante a face do mal que tudo contamina. Aliás, dois nomes que aparecem são dessa face: Heinrich Himmler e Reinhardt Haydrich. A palavra que é o seu nome não poderia fazer parte desta semântica que aprofunda a língua e a torna maléfica, que serve a morte e a devoração. Dizê-lo seria apagar o que é o mundo, um mundo onde a necessidade do organismo a dizer-se «destrói a palavra harmoniosa» da natureza (pg.14).

Esta obra, como outras de Rui Nunes, é dura, esvazia com a escrita o que se entende por humanidade e repete esse vazio em cada palavra. A repetição não é apenas para revelar a verdade do que enuncia mas para ir mais além, à violência que é toda a repetição do próprio eco semântico. Parar para apenas ouvir. Apenas. Nada mais de alguma coisa humana entre os sentidos e o mundo. Apenas o silêncio que se revela na observação do mundo, da sua substância: «há um silêncio para a morte, há um silêncio para o medo, há um silêncio para o amor, há um silêncio para cada objecto que as mãos agarram, / para cada luz, / cor, / tempo. / O silêncio é o nome / único / das coisas» (pg.49). Aqui o silêncio não é uma construção, a falta de som ou a sua anulação, aqui o silêncio é a queda do homem para dentro de si e do mundo: uma única queda. E esta queda traz consigo novas formas de escuta e a vida que a «lupa» descobre. E também uma vida, não muito larga à semelhança de um grande delta que aporta à maturidade ou à velhice, mas uma vida muito estreita, quase a sumir-se, quase uma mancha. Por ser mancha alastra e contamina. Vem do mais fundo que o humano tem, da maldade da comunidade, e aflora à superfície do corpo, ao tempo do corpo. E para dar conta deste varrimento efectuado pela mancha, a escrita tem que ser pedra após pedra, letra após letra, para que fiquem apenas palavras libertas que dizem o mundo. Poucas, porém. Um início sempre, um regresso ao lugar de partida já sem nome e às acções desse tempo. Daí o nome de Cy Twombly, esse artista plástico norte-americano que fez da escrita, à revelia das principais correntes da década de cinquenta do século XX, a mancha da sua pintura: palavras, palavras inteiras de uma memória antiga; palavras inteiras ressequidas quando chegam aos olhos; palavras da criação no momento em que Deus disse «faça-se», idêntico verbo na mão criativa.

Como sempre acontece nos livros de Rui Nunes, há uma descida vertiginosa aos infernos que nos povoam, a uma lama que vem do passado e aporta no presente e que fecha portas a muitos futuros radiosos. No entanto, não há na obra de Rui Nunes um fechamento irreversível a um devir. Há na sua literatura, a que a portuguesa deve agradecer por ter entre os seus oficiantes alguém que aprofunda a língua em que falamos e na qual nos constituímos como comunidade, pontos luminosos que nos fazem bem, já que nos colocam perante a nossa precariedade (“um corpo é um sítio precário”, pg.68), ou melhor, reflectem o que somos. E, na verdade, a todos os níveis não somos mais do que restos: restos de um oleiro em seu trabalho incansável de despistar o humano, de o tornar errante; restos enquanto pedaços de uma herança que vem de longe; restos de significados precisos que enchem as palavras (todas as palavras têm uma história semântica para contar, «todas têm para trás um longo percurso» pg.67) e contaminam o que digo com elas; restos de uma explosão dos aspectos; restos de uma luz que na sua intensidade cega; e, por fim, restos de um corpo em queda. O que Rui Nunes nos diz é que somos este conjunto desde que nascemos e que, no tempo da nossa duração, se vai purificando até à dor e ao sofrimento. «Quem não sofreu que atire a primeira pedra. E todos o deixaram. Só. A escrever na terra. A palavra. Aquela. Que não será lida. O princípio. Ou. O recomeço», pg.61.

22 fevereiro, 2011

O Universo Sonoro


Tenho andado arredado desta actividade. E a razão é quase sempre a falta de tempo.

Venho aqui trazer uma notícia: a publicação do meu livro «O Mundo é uma Paisagem Devastada pela Harmonia». Título que fui roubar a um verso do escritor Rui Nunes.

Esta obra tem por subtítulo [Ensaio sobre o ruído e por natureza o som]. É, na maioria das 230 páginas, um voo sobre o que se fez em torno do som e do ruído, nomeadamente, desde a segunda metade do século XIX.

É bom que a hegemonia da visão e, principalmente, a cultura visual ceda algum espaço à cultura do som. Sem o sabermos somos por vezes mais ouvido que visão.

Já à venda. Na Fnac, por exemplo:

http://www.fnac.pt/O-Mundo-e-uma-Paisagem-Devastada-pela-Harmonia-Luis-Claudio-Ribeiro/a349577?PID=5&Mn=-1&Ra=-1&To=0&Nu=1&Fr=6

30 dezembro, 2010

Em Alguma Parte Alguma


Autor: Ferreira Gullar
Título: Em Alguma Parte Alguma
Editor/ano: Ulisseia/2010


O livro «Em alguma parte alguma”, do poeta brasileiro Ferreira Gullar (prémio Camões) chegou a Portugal ao mesmo tempo que era publicado no Brasil, facto que deve ser assinalado, já que ao longo dos anos temos assistido à chegada ao mercado português (o mesmo deve acontecer e em maior escala no Brasil em relação a autores portugueses) de alguns excelentes poetas que conhecíamos apenas de nome ou de poemas em revistas da especialidade ou antologias. Claro que quem anda actualizado se lembra de uma antologia (Obra Poética) deste autor publicada há alguns anos pelas edições Quasi.
A obra de Ferreira Gullar, já extensa, funda-se numa relação com o real e, neste livro, no permanente encontro com a ausência, mesmo da linguagem. A poesia aparece sempre por detrás do que não se sabe. A língua é aqui um dispositivo que diz simbolicamente o mundo e ao inscrever o nome, «pêra», por exemplo, põe em relevo um «máquina viva» em sua entropia. Ao ler estes poemas de Gullar, sobretudo os da primeira parte, vem até nós a expressão de Roland Barthes, a de que um texto (ou um poema) é um tecido, uma teia, através da qual a aranha se desfaz. Este tecido é feito de muitas texturas. Muitas o poeta convoca, do ínfimo às estrelas, do cheiro das flores ao brilho incessante dos astros. E esta convocação tem como fito «reinventar o certo pelo errado», mesmo que isto signifique o encontro com o corpo em perda e com a morte. Um encontro na palavra com os silêncios do mundo: «a poesia é, de fato, o fruto / de um silêncio que sou eu, sois vós, / por isso tenho que baixar a voz / porque, se falo alto, não me escuto».
Para ler.

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