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Abra de alguma lucidez audível / o que nem sabe-se por palavras nem / na música caminha, nem o silêncio anuncia-o [...] (J.O.Travanca Rego)

13 fevereiro, 2006

Esta tristeza tão enrolada na cal



Lavra e Pousio, de João Rui de Sousa
Publicações D.Quixote, 2005

1. A poesia já aconteceu no momento em que dela falamos ou escrevemos. O lugar da poesia é assim um lugar que está antes do seu acontecer, um lugar de espera que serve apenas o espaço do fenómeno e nada mais. Ao contrário de toda a linguagem, que se espalha pelos escombros do mundo reunindo-os ou deixando-os náufragos ao contágio de significação, a poesia desprende-se do dizer para esse lugar, pinga sem significado, como uma língua que existiu e se tornou incapaz, no progresso da espécie, de dizer o mundo, de o nomear. Não falo, que fique claro, de um resquício de um mundo e de uma língua que já não estão ao nosso alcance (embora saiba que há autores que assim se defendem), falo de um lugar que apenas se pode encher no encontro de algumas palavras, que pingando se desfazem em sentido.
2. À obra de João Rui de Sousa que começou com o livro Circulação, publicado no extinto Círculo de Poesia, da Moraes Editores, acrescenta-se agora este livro, que como é escrito em nota final, reúne oitenta e dois poemas escritos entre 1985 e 2004, a maioria publicados em jornais, revistas e volumes colectivos.
Estamos assim perante uma recolha de poemas de vários tempos, que como indica o título, sofreram da organização intrínseca à lentura dos dias.
Enquanto lia os três capítulos que dão forma a este livro, lembrei-me, muitas vezes, dos versos de Carlos de Oliveira: Rudes e breves as palavras pesam / mais do que as lajes ou a vida, tanto, / que levantar a torre do meu canto/ é recriar o mundo pedra a pedra.
Não falo da influência de Oliveira na depuração formal do versos nem do cheiro inebriante de Camões: o que de significativo esta poesia revela é um poeta que tendo-se mostrado sempre num movimento duplo, de quem revela a alegria de estar vivo e a pena de ser, deixa escorrer agora para os versos o desconcerto de um ocidental «com a deriva e o rombo / da quilha já em descida». Poderíamos, é claro, referir que o sujeito destes versos e o seu território é alguém que nunca tendo deixado de, com sarcasmo e ironia, apontar as vicissitudes do seu tempo, reflecte, muitas vezes neste livro, algo do português contemporâneo, urbanizado, e dessa longa tristeza, tão enrolada na cal, bem ao rés da nossa mesa (pg.27), cuja geografia afectiva, tão bem desenhada pelo português em rectângulo no fundo da Europa, teima em sumir-se no mar fora (pg.43), como a jangada de Saramago.
João Rui de Sousa, que nos habituou há muito a um relatório (poético) exaustivo do que é a condição humano, nunca afasta a presença de uma alegria, um caminho, ou como ele escreve, uma alegria de linho / na escuridão do sargaço (pg.50). O que esta poesia inscreve, como uma excisão no corpo de todos os leitores, é uma melodia táctil que constrói aos poucos um espaço auditivo muito próprio, muito rente à pele, como pequenas histórias que não podiam deixar de ser ditas, pronunciadas. Estes versos partem de um futuro qualquer, o do poeta, por exemplo, muito deixado ao abandono para o que será, e encaminham-se de olhos bem abertos para os poisos já vividos. O que de nostálgico emana desta poesia reside mais na sua musicalidade do que reviver um tempo que pertence ao olvido: neste confronto, funde-se na perfeição a destreza rítmica com o canto. E é por aqui que vamos na entrada do segundo capítulo.
A leitura desta parte solicita-nos para um tempo de construção que nos parece anterior à primeira parte e que é dominada por duas linhas de força, a saber: o trabalho e os dias, e uma linguagem solta num registo do quotidiano. Há, portanto, um contar de pequenas histórias, vertidas em verso, com a poderosa estrutura frásica e musical de João Rui de Sousa a dizer-se em quadros autobiográficos (como o Concerto para Estore, Buzina e Criança. Este título, como veremos adiante, bem poderia ser o nome de uma composição musical bem contemporânea). A passagem das partes, feita por uma porta sem nome, tem que ser feita eliminando o rastro que, possivelmente, os poemas anteriores deixaram em nós. A todo o momento somos surpreendidos por uma linguagem ao rés da pele, feita de músculo e sangue e de um atrevimento contra o modo como, sem o sabermos, ou sabendo-o adiamos o seu pensar para outro dia, os outros e os objectos nos (des)organizam o quotidiano. Lembro, a título de exemplo, Confusão Bancária: (o computador que é puta / que o pariu já não computa / nada a fazer caro Alfredo). Regista-se nesta segunda parte o uso da repetição de algumas palavras (tão usado por algumas vanguardas instaladas no Moderno) que têm um efeito musical dodecafónico, espelho de uma realidade fragmentada e que, paradoxalmente, pode ser unida por simples palavras: estas repetições funcionam como uma espécie cola, que acentuando a fragmentação (ou deflagração) do quotidiano unem esses pedaços dispersos no tempo, fixam-se na realidade que é o poema (A Palavra: Conexões). O que estes poemas oferecem ao seu leitor (neste caso, a mim) são pequenas construções, que sem a sua leitura permaneceriam para sempre naquele lado sombrio de uma memória que ser quer esquecida para que possamos ainda viver: O Grande Voo, cujo motivo lembro em notícia de jornal ou televisão, é disso um exemplo.
Não deixa de estar presente, o que é rastro profundo na obra deste poeta, esse olhar terno sobre os seres; sobre o que todos os dias se ergue como uma novidade por sobre os escombros e a estranheza de ainda estarmos vivos. Esta ternura por nós, seus leitores, uma espécie de postura ética do poema (imaginando por detrás o seu autor) desvenda-se com mais facilidade na terceira parte deste livro, que abre com uma citação de Mário de Sá-Carneiro. Na verdade, para se «Lavrar no chão dos versos» é, nos dias de hoje e possivelmente de sempre, aceitar que para dar forma a algum sentido que por nós se quer comunicar é necessário ter a palavra amor e ter amor à palavra. É não perdermos entre os dedos aquele longo fio, feito de morte e sangue, que é toda a gesta que nos antecedeu (gloso aqui o poema Lavrar no Chão dos Versos, que abre o último capítulo). Esta parte do livro pode ser lida como uma continuação dos temas matriciais que povoam a primeira, sobretudo, a evocação de um tempo cumprido; não um folhear de memórias em verso postas, mas o de uma voz que recobre a paisagem (iremos ver que só isto serve a literatura), germinando por entre a neve e numa geografia afectiva (como demos conta na primeira parte) que «sem rumo / vai no jeito da descida».
3. Como bem o sabe João Rui de Sousa, o mundo apenas pode ser escrito e reescrito e nada mais, nem sequer desvendado. Também não é este o ofício ou uso da poesia. A sua função é de uma varredura periódica na face do mundo. O que o leitor terá é um espaço, ou melhor, um duplex, com espaços diferentes mas contíguos. No primeiro avista-se o deserto preenchido por algumas coisas, pode não ser bem um deserto mas o espaço que ficou depois de o poeta varrer essa superfície, no outro espaço reside o lugar da criação dialógica, do que se pretende que o leitor execute com uma leitura que é outra varredura mas em sentido contrário, de recomposição. O poeta, no seu constante aperfeiçoamento da forma, leva-nos da decomposição própria de quem se olha, a um processo de reconstrução de um espaço, onde conviver com o trágico e a perda (qualquer que ela seja, pois o humano é um ser em perda) é um acto de sobrevivência.
[publicado na revista Vértice, nº126, Jan-Fev, 2006]

1 comentário:

Concinha da Mata disse...

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