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Abra de alguma lucidez audível / o que nem sabe-se por palavras nem / na música caminha, nem o silêncio anuncia-o [...] (J.O.Travanca Rego)

18 outubro, 2014

A fotografia

A fotografia era o real. Tornava visíveis os opacos e por eles a luz. É um problema do século XIX: ver o invisível. Também o som. Só que a fotografia nas suas relações com o poder quis ser outra coisa: propaganda. E, no melhor, um exemplo retórico do que estava escrito. 
No momento em que alguns artistas usam a fotografia para "recriar" o real, opondo imagens, manipulando outras, a imagem técnica instalou-se numa transhermenêutica que lhe retirou a noção do verosímil. Então a fotografia desceu à morte que sempre representou.
Lembro-me sempre de Kafka numa conversa com Thieberger: a fotografia é uma coisa sinistra. E ainda por cima pode ser ampliada.

17 outubro, 2014

Uma frase

Eu estou no meio do mistério, a Arte ajuda-me a deslocar-me no meio dele.
(Frei Bento Domingues, em entrevista a Lídia Jorge, Público, 28-9-2014)

15 outubro, 2014

Os Nossos Tempos

Juntaram-se na minha secretária, mera coincidência e convívio bom, o livro de Vargas Llosa, A Civilização do Espectáculo, e a tradução para português da obra de Gilles Lipovetsky, com a colaboração de Jean Serroy, (L’Esthétisation du Monde), O Capitalismo Estético na Era da Globalização. O Capitalismo Estético é apenas uma continuação da obra anterior de Lipovetsky: uma antropologia social, descrevendo as estruturas que fazem da obra de arte contemporânea um elemento importante no circuito internacional do capitalismo. E aqui entram em jogo muitos agentes que não faziam parte do jogo da arte: os políticos e ideologias, os mercados, o real valor das obras e o seu valor comercial. Como em qualquer venda, ninguém quer perder. Mas há sempre perdas a relatar, agora que a obra de arte é vista na era da globalização. O espetáculo tem que continuar e a isso serve a estetização do mundo. O mundo está cheio de objetos estéticos e a sua serventia deixou para trás o problema estético para se fixar no valor de troca e circulação. Estas obras  são herdeiras de muitas que surgiram depois da segunda metade do século XIX, quando a modernidade se começou a interessar pelo tempo e pela história. E quando a tecnologia e a técnica aceleraram os seus processos de controlo e de distanciação do homem, ou desnaturalização: entre o homem e o real há agora mediadores. O fétiche e a fantasmagoria (de Marx e Benjamin) são aqui importantes para entendermos o nosso presente; depois veio Adorno e a mercadoria (e também a «infantilização» da produção e recepção musical: On the Fetish-Character in Music and the Regression of Listening); e Debord e os situacionistas. O que Vargas Llosa nos diz, em crónicas publicadas e que são a base do seu livro, é que o problema da arte é também o problema do homem e da sociedade ocidental que fizemos. A sociedade transparente que muitos querem constituir como a potência máxima da democracia é apenas um vidro transparente que não permite ver-nos, a não ser quando algo acontece em quem respira e fica embaciado. Mesmo assim não nos vemos, nem o que fica além desse vidro: vimos o que escrevemos ou desenhamos, até que a total transparência volte. Se deixamos de nos ver e o real não se atinge, é apenas uma imagem, então nós, como objetos, transformamo-nos em fantasmas. É preciso gritar isso bem alto. E esse grito dá em arte, infantilidades, fetishismo e esmagamento moral. A solução é retirar essa transparência para que possamos ver os outros e neles, nos seus olhos, o nosso rosto. Talvez Lévinas tenha razão.

14 outubro, 2014

Um espectro irrompe

Leio uma notícia no jornal Expresso. Coisa pequena, um pequeno quadrado no topo de uma página, à direita, numa secção a que o próprio jornal chama «Breves». Ouvi a mesma notícia na rádio.  «UKIP entra no Parlamento». É este o título. Vem-nos dizer, um pouco como acontece em quase toda a Europa, que o racismo e a xenofobia estão de volta ao parlamento inglês. O eurofóbico UKIP (partido da extrema direita britânica) conseguiu eleger um deputado. O problema, não é a eurofobia, disso deve estar o parlamento inglês cheio, é o que esta ideia traz à sua retaguarda: um conjunto claro de ideias racistas em que o outro é sempre o estranho a evitar. Começa por quem não faz parte do seu credo e raça e alarga-se depois aos seus vizinhos. E o UKIP já começou, pedindo que sejam proibidas de entrar no Reino Unido pessoas com VIH. Nós sabemos que a doença invocada é apenas o brilho das facas que, para já, não querem exibir.

13 outubro, 2014

10 de Outubro: novo livro de Rui Nunes


Li esta noite a última obra de Rui Nunes: um livrinho com pouco mais de 30 páginas, publicado pela Língua Morta. (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?). Esta pequena narrativa trata a morte de alguém que viveu numa cidade portuária. Sabemos isso pela descrição de ofícios, barcos e um porto. Para além desta morte, há o que a funda: o preconceito homofóbico. É uma descrição dura como sempre na obra de Rui Nunes: minuciosa nos actos e nos elementos que compõem o seu desenvolvimento. Tem uma unidade própria já que o fio condutor se ergue a partir da deambulação de uma espécie de espectro. Falo de espectro porque muitas personagens de Rui Nunes (e esta parece ter realmente existido) têm uma assinatura que parece ter nascido com elas, que lhe foi aposta: a morte e a dor são parte delas, como se fizessem parte do seu carácter e do seu sangue. Há sempre na obra de Rui Nunes uma dimensão ética que não encontramos na maioria da obra literária contemporânea. Há muito que deixou a história como condutora de um modo de constituir o seu discurso e o ponto de vista sobre o mundo. Fazemos o nosso ponto de vista sobre a obra, enquanto leitores, porque somos forçados a uma construção e desconstrução dos processos narrativos mas também dos modos de olhar o sujeito. É a condição humana e as suas margens que brotam do centro dos seus livros.

9 de Outubro


É importante começar. As mãos começam a ficar tolhidas no seu mistério. Encantadas por estarem votadas ao seu abandono natural. É preciso que elas regressem e participem do estar vivo. A cabeça está aí, espera apenas um tempo de se fazer palavras. Também o corpo quer ser outra coisa, quer ser espírito, mas eu quero que ele seja linguagem. Não podemos esperar. Não por uma questão de tempo, mas de memória. Não de uma memória vindoura mas a de um quotidiano que, também ele, se quer arrastar e cair para o esquecimento. Lembrar é aqui importante. Começaram as primeiras chuvas de Outono. Eram precisas, diz quem sabe: lava-se um pouco o chão da terra e o ar fica mais respirável. Fizeram-se esta noite pequenos charcos nas ruas. Deve ter chovido muito. Todos se desviam, e os olhos perseguem um fim ao longe. Estamos a ficar sonâmbulos, não preenchidos de sonhos mas de trabalhos. E os dias são estações ferroviárias que se perdem no nevoeiro. Ficam-nos algumas. As que merecem. Também os dias.

31 março, 2014

Um Jardim Abandonado que Desbota, novo livro

Já não publicava poesia desde 2002. O último «À Procura da Cidade Sob a Luz Artificial» foi publicado pela Black Sun, nesse ano longínquo. Sai agora «Um Jardim Abandonado que Desbota».
Deixo aqui um poema:

(segundo)

E uma noite depois quiseste ficar comigo.
Tudo parecia idêntico menos as nossas mãos
que trémulas seguravam o silêncio
não fosse ele soltar-se e partir-se
e espantar os pássaros para bem longe.

Tínhamos ambos a língua inchada
de nada dizer
do sarro que se cultiva na superfície
que sabe por vezes a sangue
quando lavrado com os dentes.

Dá-me a tua mão, pedes-me,
mas ela tem a força
de nunca ter sido corpo
e desmancha-se a caminho da tua.

Quando te toco é já  um feixe de ossos e carne que se alonga
desprendendo-se com anéis e tudo para o silêncio
lá fundo.

Aperta cada vez mais, sufoca-a,
até que seja tua, tua pele,
ou um anjo degolado:

peço-te.

15 dezembro, 2013

A Palavra Memória

Autor: Zlatka Timenova
Título: Chama, a Palavra
Editora/Ano: Edlp/2013

Este livro de Zlatka Timenova*, em pequeno formato, parece ter sido feito para a mobilidade urbana. Com prefácio de Nuno Nabais e revisão de Rui Zink, a poetisa búlgara verte para a língua portuguesa textos que, penso, escreveu originalmente em francês.
Temos então uma edição bilingue de pequenos poemas que se lêem como traços de um quotidiano submerso pela breve luz que se encanta por objectos, sentidos ou memórias. Com eles caminhamos ao encontro de uma opacidade que se revela em poesia. As palavras assumem que o que é breve aos sentidos merece permanecer -preto no branco- sem, contudo, se esquecer que também o verso se insere na linha do tempo: «No eco / do silêncio / oiço o sussurro / do tempo / eu sou o tempo» (pg.79).
Os poemas que raramente ultrapassam os cinco versos, tornam possível unir, no instante do seu aparecimento, o corpo sensível e a fantasia. Instante poético recolhido (em duplo significado) na ferocidade do tempo quotidiano. Talvez por isso se abra o título deste livro a uma ambiguidade semântica consentida: a que faz nascer a palavra incêndio - ardor e inspiração- ou convocar a palavra: CHAMA, A PALAVRA. Palavra para perpetuar o instante: «Areia fina / entre os dedos / corre / o silêncio/ dos nossos dias» (pg.25).
Um livro a ler.

*A autora nasceu em Sofia, na Bulgária, e está desde 1994 em Portugal, escrevendo, traduzindo e ensinando.

20 outubro, 2012

Outra despedida

Acompanhei a produção poética de Manuel António Pina a partir de «Aquele que Quer Morrer» (Na Regra do Jogo, 1978) e só depois cheguei a «Ainda não é o fim…» (A Erva Daninha, 2ª edição, 1982). Soube-se agora do seu desaparecimento prematuro. E lembro o seu poema «algumas coisas» onde fala do peso da memória que se «instala em todas as coisas de dentro para fora». Poucos poetas nas últimas décadas trabalharam tão afincadamente a memória, literária e individual, como Manuel António Pina. Havia na sua poesia o desejo de reunir o que na sombra ou no chão é fundamento do que é explícito, já que aquele que está vivo (que é, afinal, aquele que quer morrer) «dança sobre os destroços de tudo». É grande e profundo este levantar em verso «pequenas frases» que dão viço à vida. Sem elas o deserto crescia para fora, e ai daquele que traz em si desertos, lembrava Nietzsche. Mas aquele que quer morrer, lembra-nos, é aquele que quer conservar a vida. Porém,


Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se).



Lisboa a ver o Porto, 19 de Outubro

16 outubro, 2012

Descida

Rasga a noite
uma voz clarão
que separa o que compõe
o mundo.

01 junho, 2012

Em memória da minha filha Francisca

Tal como há dez anos também agora as cerejas se mostram vermelhas nas árvores. Vêem-se ao longe, dos caminhos que nesse dia não chegamos a percorrer. Ficamos muito antes quando ela já levava a brincadeira nelas: correr entre as cerejeiras, chegar aos ramos que dão para os cinco anos; dizer «papá posso comer assim?». E eu a dizer que é preciso lavar. Ela conhecia bem o sítio da água.


Inquieta como sempre queria chegar antes de termos começado a viagem. Inquieta de luz. Que via a sua inocência que nós não vemos? «Posso andar no tractor do tio?» perguntava a Maria, e ela que não. Mas foi só da primeira vez. Depois quis subir. Sentiu o que é a brisa que atravessa a Gardunha e o cheiro forte das árvores. Nesse ano não. Ficou-se distraída num lugar da estrada, naquela por onde poucos já passam. E todos os anos nesta época é assim, e todos os dias é assim: nasce um pomar de cerejeiras só para ela, com água fresca e tudo. E nasce em mim uma árvore às avessas que é só dor.

Mas Francisca, já não existe a quinta, por lá passa agora um túnel húmido e sombrio, cortaram todas as cerejeiras. E também a água foi levada para outros lados. E a vida.

13 maio, 2012

UMA POSSÍVEL HABITAÇÃO

O livro Barro (Relógio d'Água, 2012) é na obra de Rui Nunes um elemento singular. A palavra «barro» que escolheu para título reflecte essa singularidade: por um lado é matéria-prima, arquétipo narrativo que «enforma» alguns dos seus livros; por outro é matéria autobiográfica, remetendo para o avô oleiro. O livro compõe-se assim em duas vertentes: a primeira dá-nos conta dos principais temas que constituem a obra já vasta deste autor (o primeiro livro, «As Margens», é de 1968); a segunda acrescenta-lhe as suas memórias, algumas delas inscritas noutros livros do autor. Este trabalho é feito num cerzimento metódico, unindo fios dispersos, unindo tempos e palavras que lhe são elementares. Assim se faz a literatura.


Um dos temas recorrentes na obra de Rui Nunes é a noção de pátria, agora identificadas: duas da infância, três do homem adulto. Pátrias sensíveis é do que falamos. A primeira é terra e casa, na Beira Baixa, que vem a nós sob uma luz de verão, intensa, que coagula no limiar e torna escura a habitação. Por isso o campo e a deambulação. Enchem as páginas desta pátria, bichos, pó de barro, chão e brincadeiras. E nelas os sentidos projectam-se até aos mais pequenos movimentos e segredos.

Depois da cegueira da luz, ao rés do chão, a outra pátria tem uma brisa marítima, atlântica, lá para os lados de Setúbal. Aqui tudo é diferente: é o mar que explode de vida e enche de luz a habitação. Temos depois mais três pátrias: a de Wachau no Outono, onde se vê, a partir do Danúbio, os restos de uma civilização e «um rio perdido entre a nascente e a foz». Mais a norte Kirkenes, terra vertical sobre o mar, um arrepio profundo. E, por último, a que defende uma outra noção de pátria para os homens: uma pátria sem território apenas corpo, nómada, com o nome próprio de «Viagem».

Este livro está organizado como se fosse um livro de cânticos, aqui e ali intercalados por um refrão. Para decorar, conforme os escritos mais antigos, os primeiros. E como canção, a escrita imprime uma determinada velocidade, ajudada pela versificação. A matéria é, como vimos, a vida; pontos de luz que se unem vindos do passado e se aconchegam no presente que tem sempre uma palavra a dizer ou a acrescentar um hálito de tristeza. Há nesta matéria, substância suficiente para uma definição autoral de escrita e literatura.

O «Faça-se» é aqui não a mediação «ad-hoc» mas a margem da língua que ainda toca no mundo: uma margem antiga, primégina, quando a linguagem quis ser a ponte entre o que é humano e a perdida physis. Se a linguagem primeiro e depois a escrita afastaram o homem da sua natureza, é possível ainda encontrar nesta língua de Rui Nunes um uso em criação e não apenas em mediação. É isso que deve fazer a literatura: encontrar essa margem de contacto, na linguagem, entre coisa humana e natural: «todas as palavras cortam, à nascença. Por isso, / obrigá-las continuamente a renascer, / embora seja também contra nós que renascem.» É necessário, por isso, arruinar a sintaxe, antes que palavras «inventadas» se interponham e tornem insignificante a língua e a vida. Talvez «o fim de qualquer escrita seja a sua destruição». E por esta destruição se destroem também palavras inventadas sobre a ruína, como «deus».

Nunca se sabe o lugar de contacto, nem nunca podemos regressar pelo mesmo caminho. Não há sinais para o retorno. Nesse lugar pode erguer-se sempre uma habitação, mas precária, radicalmente humana, mas sempre pobre: «e dessa unidade tão débil, da veemência dessa pobreza, se fez, se faz, um texto.

Sem pátria. Sem poder.

Quase sem nome.»

Sinto-me mais vertical com livros assim.

El Peine del Viento, Eduardo Chillida, em San Sebastian


05 maio, 2012

Orquídea

A única planta que tenho em casa é uma orquídea. E todos os anos em meados de Abril o verde mancha-se de lilás. Este ano nasceram-lhe cinco bonitas flores. Todos os anos parece haver mais uma. Depois é vê-las todos os dias quando chego a casa. Mas em cada três dias cai uma flor. E hoje, dia 5 de Maio, caiu a última que não guardei. E eu fiquei a olhar aquela haste que queria encher o mundo, a ficar cinzenta e a pensar murchar. E a pergunta que faço é: o que seremos - eu e planta - daqui a um ano, quando a planta se lembrar de ser flor outra vez?

18 fevereiro, 2012

Sentir













Autor: António Salvado
Obras: REPOR A LUZ e AURAS DO EGEU e de todos os mares
Editora: Fólio Exemplar
Ano/Cidade: 2011/Lisboa

Há poetas que vêm connosco desde sempre. Perdidos na infância, ambos. Lembramos nomes. Às vezes ainda não como criadores de poemas e obras mas apenas um nome. Depois chegamos àquela idade que se deseja ler sem sabermos a causa. É aqui que surge António Salvado. Como outros, mas no meu tempo apenas, limitou uma pátria sensível e sobre ela escreve. Se este texto tivesse outro alcance, podia falar de uma cultura sensível, aquela que permanece inviolável nas comunidades beirãs: um olhar muito próximo da natureza que ele soube captar como poucos; um ouvido apurado para o fazer dos insectos se é verão; o itinerário das águas e a metamorfose das flores. E como todos os que chegam à sua idade (Castelo Branco, 20 de Fevereiro de 1936), sente-se agora nos seus poemas um outro alcance, uma espécie de ética poética que quer transmitir aos seus leitores. E por baixo, mesmo no lugar em que o seu sangue tinge as ribeiras, o assombro constante de quem pela primeira vez viu crescer e definhar uma flor.
Os poetas lembram-nos mais que outros o que é estarmos vivos, mesmo que cercados pelo inverso.
«Ó Cesário, tu que amavas a cidade e detestavas o campo, deixa que alguns corações repousem no zumbido sazonal da paisagem.»


Aquilo que direi…
[…]
E só nomes gerados pel’ausência
Aqueles que ouvirás:
Com sílabas de amor fora do tempo
E conformando um comovido espaço.
(do livro Repor a Luz)


Agora que faz anos, daqui lhe mando uma abraço.

11 janeiro, 2012

A CRIANÇA

Escrever palavras, com um dedo de criança
para ficarem soltas no ar, «como alegria e mundo».
Escrever outras menos precisas, «como amor»,
só por descuido,
pois muitas mirram e morrem
sugadas pelo ar da manhã.

Mas o homem não sabe escrever de outro modo.
Nunca teve outro utensílio
apenas o dedo indicador com que desenha
as letras bonitas e redondas
que viu nos livros da casa.

«Desenhar casa», lembrou-se
e surgiu uma cidade
mistura de outras cidades do Sul.

Olhou para onde nunca esteve
e esperou que o ar a engolisse por inteiro.

25 agosto, 2011

Sobre o Fantasma e a Literatura



Obra: Teoria do Fantasma

Autor: Fernando Guerreiro

Editora/Ano: Mariposa Azual/2011



O fantasma colige, sobretudo a partir do século XIX, e ainda mais com o aparecimento das máquinas de reprodução (som e imagem), significados que nunca se perderam na literatura, seja ela erudita ou popular, laica ou religiosa.


Assume-se, no entanto, na primeira parte deste livro, «Literatura Fantástica», (esta obra comporta mais uma parte em poesia a que o autor chamou «Teoria do Fantasma» e uma separata «Teatro Dubrowka»), que não é apenas uma aparição do que já perdeu o corpo que se fala (e daí a palvra teoria) mas de Poesia, enquanto operação humana de produção (em diferentes camadas) de um outro que contamina a literatura tornando-a espectral e, por isso, fantástica.

O ensaio (e o poema) sugere dois percursos para essa aparição: por um lado o autor sabe-se portador do fantasma que preenche o texto; por outro lado o leitor constitui-se, na leitura e através do semelhante e analógico, com a estranheza.


Isto implica quase sempre, dependendo dos modos de produção de sentir, que o «real» renasce sobre o espectro, o que «implica o risco do sujeito» (leitor e autor). Risco de vida mesmo. Quantos soçobraram à visão de um «real» a partir de um meio? É esta última palavra que o livro segue. Não apenas o meio mas também a sua mensagem, essa que torna sensível, «visível», o fantasma.

15 julho, 2011

para os meus amigos

O corpo já arrefece e
a vida é apenas o tempo
de um abraço

11 julho, 2011

JORGE LIMA BARRETO





Conheci pessoalmente o Jorge Lima Barreto há pouco tempo, há menos de um ano, por obrigação académica: fiz parte do júri da sua tese de doutoramento que apresentou à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (da Universidade Nova de Lisboa). Já tínhamos trocado alguns mails, e continuamos a fazê-lo depois da dissertação. Queria convencê-lo a dar algumas aulas no curso de Ciência e Tecnologias do Som, na Universidade Lusófona. Quando um dia destes foi ter comigo à universidade achei-o muito em baixo. Perguntei-lhe das causas. Deu-me as suas. Falamos do estado da arte e do país. Ficamos de falar. Lembro tudo isto agora que o Jorge se foi embora. Penso que deve ter ido dar uma volta, que foi até Vinhais e por lá deve ficar não se importando mais com a cidade, com a música e a escrita em torno da improvisação, da tecnologia e dos instrumentos. Foi sempre novo. Lembro-me na década de oitenta e em alguns concertos. Vou-me daqui a um dos discos dele. E que posso eu lembrar? O Verão com o Jorge dentro.

08 julho, 2011

Cy Twombly (1928-2011)



Olhamos. Olhamos muitas vezes. Suspendemos a visão e pegamos no ouvido. Queremos ouvir o traço do pincel; os riscos; as letras e, sobretudo, os nomes. Ficamos neles. Querem dizer tempo. São profundos e levam-nos a Roma e a Atenas. São nomes de gente. Todos mortos. Mesmo um ponto de tinta ou uma letra remetem para um início, uma origem, que logo se faz maior idade e parece morrer. Mas antes há em nós a evocação de um tempo profundo, da sua memória e das nossas lembranças.
Pintar ou desenhar como se estivesse a ouvir as primeiras letras a serem ditas, articuladas. Escrever para querer dizer os segredos que se escondem por detrás de todas as palavras, mostrar o significado de cada vez que foram ditas. E o que ouvimos? A algazarra dos tempos. As épocas sobrepondo-se e a audição a deixar-se cair para dentro, para essa matriz sonora que se compõe desde o início. Na infância dos gestos e da expressão: é aqui que tudo começa.

Morreu em Roma que tinha adoptado como sua.